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Tuesday, 27 November 2012

"Amor é fogo que arde sem se ver;
 É ferida que dói e não se sente;
 É um contentamento descontente;
 É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?" - Luís Vaz de Camões


O amor. Esse fogo que "arde sem se ver", essa ferida "que dói e não se sente", esse "contentamento descontente" contamina grande parte dos personagens de "Anna Karenina" e promete mudar para sempre os seus destinos. Um amor sentido de forma diferente por cada personagem, vivido de forma pessoal e intensa, que surge nos mais apropriados e nos menos esperados momentos, que o diga a protagonista do novo filme realizado por Joe Wright, a bela e frágil Anna Karenina (Keira Knightley). Entre o palco de uma peça de teatro para o qual Joe Wright nos remete e a história que transcende o palco e surge eivada de elementos do real, "Anna Karenina" transporta-nos para um conto barroco, onde a Rússia Imperial no final do século XIX transforma-se no palco de uma trágica história de amor, uma história de amor que parece fadada ao fracasso desde o primeiro momento, ou não fosse esta alimentada pela luxúria, paixão, traição e um fogo incontido que promete queimar a alma e o destino dos seus intervenientes.
 Desde o início que Anna Karenina deveria ter previsto os maus agoiros do destino em relação à sua relação com o Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). No momento em que se conhecem, um indivíduo desesperado atira-se para debaixo do comboio e suicida-se de forma brutal. Este foi o primeiro sinal encontrado por Anna Karenina quando se deslocou a Moscovo para salvar o casamento do irmão, mas acaba por começar a despedaçar o seu. Em Moscovo, Anna, uma mulher casada com o elogiado elemento do Governo, Karenin (Jude Law), logo trava conhecimento com o militar Conde Vronsky. Um beijo delicado deste na sua luva é o preliminar para mais tarde protagonizarem uma ardente dança no baile, enquanto Anna cede ao galanteador e Vronsky esquece por completo Kitty (Alicia Vikander), o seu anterior interesse amoroso, que logo é esquecida pela intensa e frágil Anna Karenina. A dança pelo salão de bailado, intensa em gestos e movimentos belissimamente coreografados, evidencia todo o ardor do casal, toda a paixão que irradia enquanto todos à sua volta parecem parar, incluindo as luzes, que passam a incidir sobre as suas pessoas. De regresso a São Petersburgo, Anna Karenina não consegue esquecer Vronsky, nem este a consegue esquecer, ou não tivesse seguido a amada para esta cidade encantada que promete ser a perdição dos dois. Sem contemplações, Karenin cedo procura evitar que Anna Karenina se exponha neste caso extra-conjugal, mas a mulher cedo cede às investidas de Vronsky, colocando em causa o casamento, a relação com o filho, tudo em prol do amor, um amor louco e ardente que nunca parece "contentar-se de contente".
 O amor é uma temática transversal a "Anna Karenina". Desde o amor de Joe Wright ao pormenor, pontuando a obra por belíssimos e faustosos cenários e guarda-roupa, eivados de elementos barrocos, onde as cores douradas e vermelhas de luxúria e paixão contrastam com os tons negros da infelicidade, ao mesmo tempo que toda a estética apurada da obra exacerba os cenários, os desempenhos dos actores e os sentimentos dos seus personagens. Este amor não surge apenas pelo amor de Wright ao pormenor, da sua capacidade de proporcionar belíssimos momentos cinematográficos, mas também dos personagens que povoam a narrativa, onde cada um parece sentir o amor de forma distinta, mas igualmente arrebatadora. Veja-se o caso de Anna Karenina. Embora seja casada, Anna Karenina procura descobrir pela primeira vez o amor arrebatador, louco, que tolda a mente e a razão, algo que não encontra em Karenin, mas em Vronsky, um galanteador que encara o amor às mulheres como um modo de vida. Se a paixão de Anna e Vronsky é recheada de luxúria, pecado, amor ardente e carnal, o amor de Karenin é contido, tal como todos os seus sentimentos, um amor que raramente é exteriorizado, sendo sempre focado na relação familiar e da sacralidade do casamento. Ao contrário destes, a relação entre Levin e Kitty revela-se uma relação de amor terna, mas longe do fulgor, mais próxima da amizade, menos capaz de causar essa "dor que desatina sem doer".
 À medida que as várias relações de amor desenrolam-se, a tragédia de uns e a felicidade de outros parece aproximar-se, enquanto Joe Wright desenvolve uma belíssima adaptação do clássico literário de Léo Tolstoy. Várias foram as adaptações deste livro ao grande ecrã, uma obra literária cuja história desperta paixões e teve direito a alguns filmes memoráveis, tais como "Anna Karenina" (1935), de Clarence Brown e protagonizado por Greta Garbo, bem como "Anna Karenina" (1948), de Julien Duvivier, protagonizado por Vivien Leigh. Sem a aura trágica e a presença própria das divindades de Garbo, Keira Knightley consegue mais uma vez surpreender ao interpretar esta personagem trágica, que seduz e é seduzida, que cede ao amor e à paixão, uma personagem pertencente à alta sociedade russa, que logo sucumbe a um dos sentimentos mais primários. Diga-se que Knightley surge bastante bem acompanhada por um Jude Law discreto e magnífico como Karenin, conferindo sempre uma pose austera e ao mesmo tempo vulnerável ao seu personagem, enquanto Aaron Taylor-Johnson aparece enérgico como o galanteador Conde Vronsky, embora nem sempre forme uma dupla convincente com Knightley.
 Estes personagens movimentam-se pelo palco de uma peça de teatro que cedo abre as suas portas à imaginação e extravasa o palco, enquanto os sumptuosos cenários pelos quais se deslocam os personagens sobressaem e tudo parece ganhar uma magia e encanto fora do comum, uma sumptuosidade barroca, na qual um se baile transforma num evento de rara beleza, com Joe Wright a confirmar a sua apetência para este tipo de cenas, tal como tinha feito de forma exímia em "Orgulho e Preconceito". Embora a história de "Anna Karenina" já seja sobejamente conhecida (ou pelo menos deveria ser), esta adaptação de Joe Wright tem o condão de manter o interesse do público ao longo da narrativa, captar a atenção para o meio destas histórias de amor tão teatrais e tão próximas do real, tão loucas e ao mesmo tempo tão racionais, beneficiando e muito do argumento de Tom Stoppard, que consegue não só desenvolver a história relacionada com o romance adúltero de Anna Karenina, mas também as histórias dos personagens secundários. Este desenvolvimento dos personagens secundários, em particular de Levin, permite a Domhnall Gleeson ter um dos papéis mais distintos e carismáticos do filme, permitindo à narrativa desenvolver uma dicotomia entre a superficial vida da corte de Anna Karenina e a genuína humanidade dos personagens que habitam o espaço rural, destacando-se o próprio Levin. Esta dicotomia, exacerbada pela procura em explorar a vida de corte da Rússia do Século XIX, não só revela toda esta superficialidade material, mas também a diferença nos amores, nos cenários (o campo sempre menos adornado e próximo do real, enquanto a corte parece saída dos sumptuosos e estilizados cenários de "Moulin Rouge", de Baz Luhrman), uma dicotomia reveladora da procura de preencher a narrativa de códigos e mensagens subliminares, onde não falta o comboio, aquele símbolo da tragédia que avança imparável à velocidade das emoções dos protagonistas. Se esta dicotomia entre campo e a cidade, entre o amor selvagem e o amor contido é sempre paradigmaticamente representado ao longo do filme, o mesmo não se pode dizer do pouco desenvolvimento dado à relação entre Anna Karenina e o filho, com o espectador a raramente sair convencido do facto de esta hesitar em abandonar o marido devido ao facto de este a proibir de ver o petiz.
 Entre o ardente amor adúltero de Anna Karenina e o Conde Vronsky e a relação de amor contida de Konstantin Levin e Kitty, entre a relação de amor maternal de Anna Karenina e o filho e a relação de amor de Joe Wright pelo pormenor, "Anna Karenina" revela-se um drama romântico ambicioso, no qual os faustosos e barrocos cenários coadunam-se com os faustosos sentimentos partilhados por Anna Karenina e o Conde Vronsky, uma obra onde o amor contamina os personagens como "um fogo que arde sem se ver" e proporciona uma espectáculo cinematográfico sumptuoso e de grande beleza.


Classificação: 4 (em 5)

Título original: “Anna Karenina”:
Realizador: Joe Wright.
Argumento: Tom Stoppard.
Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Kelly MacDonald, Theo Morrisey, Matthew Macfadyen, Alicia Vikander, Domhnall Gleeson.

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