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Wednesday, 28 November 2012

 Em 1984 estreava nas salas de cinema "Red Dawn", um filme norte-americano ultra-patriótico que colocava um grupo de jovens numa guerra de guerrilha contra os invasores russos que atacavam o território dos Estados Unidos da América. Estávamos ainda durante a Guerra Fria, num período particularmente delicado, muitas das vezes denominado de "Segunda Guerra Fria", no qual se assistia a uma "paz armada" entre os Estados Unidos da América e a União Soviética, um conflito no qual Hollywood teve uma participação importante, nomeadamente, através das suas obras cinematográficas ao serviço da diplomacia cultural yankee. 
 Em 2012, estreou nas salas de cinema nacionais o remake de "Red Dawn". Estamos longe de uma Guerra Fria, os Estados Unidos da América estão longe do apogeu de outrora, a União Soviética desmantelou-se e faz parte do passado, pelo que a escolha dos antagonistas não recaiu na Rússia, mas sim na Coreia do Norte. Porquê a escolha deste país? Porque pouco tempo depois das filmagens, o estúdio percebeu que a China, o antagonista original, teria de ser substituído, pois esta situação iria afectar a produção a nível de patrocínios e financiamentos, mas também tornar improvável o visionamento do filme na China (um mercado fulcral para os filmes norte-americanos). Falas dobradas (palavras como “chineses” foram dobradas por “norte-coreanos”), bandeiras alteradas em CGI e voilá, temos um novo vilão principal, sem ser necessário refazer as cenas que, originalmente, foram desenvolvidas a pensar numa invasão chinesa, numa atitude notoriamente racista, parecendo que "todos os asiáticos são iguais", algo que é simplesmente ofensivo e evidencia bem a falta de profundidade dos personagens. Essa falta de profundidade é visível não só por todos os norte-coreanos serem representados como seres vis, sem sentimentos, que procuram apenas invadir os Estados Unidos da América, sem que sejamos realmente convencidos em relação às razões para a invasão e à facilidade com que estes se movem pelo território, numa representação puramente maniqueísta dos eventos. 
 Segundo os dados do Banco Mundial, a Coreia do Norte tem cerca de 24 milhões de habitantes, enquanto os Estados Unidos da América tem cerca de 311 milhões de habitantes (dados de 2011). O poderio militar norte-americano é sobejamente conhecido, bem como a sua intrincada política de segurança, sobretudo no período pós-11 de Setembro, no qual pela primeira vez os Estados Unidos da América foram lesados no interior do seu território metropolitano (em Pearl Harbor não estávamos no "coração" dos EUA), algo que levou a um adensar da segurança e tornar ainda mais inverosímil toda esta narrativa. A narrativa resume-se do seguinte modo: um grupo de jovens adultos bonitos(as) e atléticos(as) é forçado a combater o exército de norte-coreanos que invade os Estados Unidos da América, após conseguir desactivar os sistemas de segurança do território. Neste grupo encontra-se Jed Eckhert (Chris Hemsworth), um marine que regressa a casa após ter cumprido serviço no Iraque, o seu irmão Matt Eckhert (Josh Peck), a namorada deste último (Isabel Lucas, que inicialmente é raptada mas logo se junta ao grupo), bem como Robert Morris (Josh Hutcherson), Daryl Jenkins (Connor Cruise) e Pete (Steve Lenz). Sem praticamente apresentar antagonistas e protagonistas, o filme logo parte para a acção, pouco tempo depois de um jogo de rugby na cidade de Spokane, no qual participa a equipa dos Wolverines, liderada por Matt, um ataque que promete ser rápido e eficaz, no qual nunca percebemos muito bem a escala nem as suas razões de ser, enquanto a narrativa se desenrola e não poupa nos maus diálogos, patriotismo barato, efeitos especiais pouco convincentes e muita acção.
 Comparar o remake de "Red Dawn" ao filme original é não ter em conta os diferentes contextos em que as duas obras cinematográficas foram produzidas. O filme realizado por John Milius fez parte de um contexto cultural e social muito próprio e fruto do seu tempo, na qual as obras anti-comunistas faziam parte de um esforço, nem sempre oficial, de Hollywood em sensibilizar a população para o perigo soviético, ao mesmo tempo que se aproveitavam para tirar dividendos financeiros e passar uma mensagem de propaganda. Neste sentido, assistimos a paródias como "The Russians Are Coming", mas também a filmes mais sérios como "The Spy Who Came From the Cold", "Communism", entre muitos outros (é altamente recomendada a leitura de "Hollywood's Cold War" de Tony Shaw, um magnífico livro que aborda o papel de Hollywood durante a Guerra Fria). Se no filme original havia todo um contexto para uma história de propaganda e completamente maniqueísta, que colocava um grupo de jovens contra os russos, no caso do remake a razão passa pura e simplesmente por razões comerciais que não se entendem porquê. Se a manutenção da China como adversário fosse mantida, talvez pudesse realmente criar-se uma sensação de medo e de acreditarmos que os norte-americanos estão em maus lençóis, visto que estamos perante uma potência. No caso da Coreia do Norte, a escolha revela-se simplesmente ridícula. Os vilões são unidimensionais, as suas razões nunca são desenvolvidas e é impossível crer que nos dias de hoje, com um simples aparelho, conseguem desligar todo o sistema de segurança norte-americano e invadir impassivelmente o território, tendo como único adversários um grupo de jovens que parece saído das passagens de modelos. 
 Com um argumento fraquíssimo que sustenta a narrativa com maus diálogos, patriotismo barato (frases como "Marines don't die, they go to hell and regroup" são de partir o coração pelo tempo que perdemos a assistir a estes momentos), sendo acompanhados por interpretações pouco convincentes (nem Chris Hemsworth escapa, Josh Peck é uma nulidade), uma banda sonora intrusiva que procura explicar ao espectador como este se deve sentir e muita acção. Entre a acção desenfreada e a acção mais contida, o filme tem curtos momentos de diálogos, nos quais o espectador pode parar para respirar um pouco, para logo de seguida voltar a mais cenas de acção e não dar tempo para pensar que nada do que está a ver faz grande sentido, e, pior do que isso, não entretém e revela-se simplesmente entediante.
 "Amanhecer Violento" marca a estreia de Dan Bradley, um conhecido coordenador de duplos, na realização cinematográfica, uma estreia na qual este se revela hábil a coordenar algumas cenas de acção, mas desastroso em tudo o resto, desenvolvendo um filme sofrível, que falha em praticamente tudo aquilo a que se propõe. Se o filme original não era conhecido pela sua qualidade, o remake de "Red Dawn" revela-se ainda mais ineficiente, não tendo sequer por detrás de si um contexto político, social e ideológico que sustente a elaboração de uma obra que coloca como adversário a Coreia do Norte, um adversário fácil de atacar, não só devido a ser um Governo Comunista, mas também por não ser um mercado relevante para as bilheteiras. Com um argumento fraco, personagens unidimensionais, uma narrativa atabalhoada, uma banda sonora intrusiva, uma estética pouco elaborada, pouco mais pode ser dito sobre "Amanhecer Violento", a não ser que se tiver um sono leve não se preocupe, pois enquanto estiver a ver este filme não vai ter um "Amanhecer Violento", mas sim um "adormecer tranquilo".

Classificação: 0 (em 5)
Título original: “Red Dawn”.
Título em Portugal: “Amanhecer Violento”.
Título no Brasil:
Realizador: Dan Bradley.
Argumento: Call Ellsworth e Jeremy Passmore.
Elenco: Chris Hemsworth, Josh Hutcherson, Isabel Lucas, Josh Peck, Connor Cruise, Adrianne Palicki, Brett Cullen, Will Yun Lee, Jeffrey Dean Morgan.

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