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Friday, 30 November 2012

  Um balão vermelho baila pelo território de Paris, circula as suas ruas, os seus locais mais desertos, as suas zonas mais povoadas, movimenta-se ao sabor do vento, à luz do Sol ou da Lua, qual imaginação de uma criança, em "Le Voyage du Ballon Rouge", o primeiro filme realizado por Hou Hsiao-hsien em França. Longe de Taiwan e da China, territórios primordiais das obras cinematográficas de Hou Hsiao-hsien, "Le Voyage du Ballon Rouge" acompanha a história de Suzanne (Juliette Binoche), uma marionetista que desempenha com grande empenho a sua profissão, enquanto procura cuidar do seu filho, Simon (Simon Iteanu), e espera que a sua filha regresse de Bruxelas, onde se encontra a viver com o pai, após o divórcio do casal.
  Consumida pela falta de tempo provocada pelo facto de ter de preparar um novo espectáculo de marionetas, Suzanne decide contratar Fang Song (Song), uma jovem estudante de cinema, para tomar conta do seu filho. Enquanto Suzanne procura enfrentar os desafios profissionais e pessoais que vão sendo colocados no seu caminho, Fang Song e Simon passeiam pelas ruas, e ao mesmo tempo que a jovem filma a sua curta-metragem e os dois são seguidos por um balão vermelho que acompanha o quotidiano dos personagens, um objecto que segue ao sabor do vento, tal como nos deixamos aos poucos levar por esta obra, na qual o fluir do tempo passa pelos personagens e pelos cenários e proporciona uma experiência cinematográfica hipnotizante.
 Fora das temáticas de Taiwan e da China, Hou Hsiao-hsien tem em "Le Voyage du Ballon Rouge" uma prova do seu engenho na arte da realização cinematográfica,ao conseguir inserir na obra toda uma sensibilidade muito própria, adaptando-a aos territórios parisienses, ao incutir uma dimensão do real que contrasta com todo o simbolismo do sonho que surge associado ao balão vermelho, que acompanha Simon e a sua ama. Entre o clima sonhador do balão que paira pelos personagense a realidade da sua vida desencantada, a câmara de filmar acompanha os cenários parisienses, em simultâneo com o espaço fechado da casa da protagonista, exacerbados pelo trabalho de fotografia de Mark Lee, numa obra belissimamente filmada, na qual Hou Hsiao-hsien se mantém fiel ao seu estilo dos planos longos, ao mesmo tempo que apresenta uma história pontuada por acontecimentos simples e quotidianos, onde nada parece acontecer e ao mesmo tempo tanto está a acontecer.
 Sem uma história intrincada, "La Voyage du Ballon Rouge" procura acompanhar o quotidiano de uma família disfuncional (mãe solteira/pai ausente), de uma mãe solteira que procura criar o seu filho, embora cada vez tenha menos tempo para isso, ao mesmo tempo que apresenta a relação da ama e do jovem Simon, enquanto aos poucos percebemos que Hou Hsiao-hsien volta a recorrer ao seu estilo frequente de utilizar os fenómenos particulares para abordar temáticas mais latas. Veja-se que não falta a mãe solteira que procura cuidar do seu filho (embora não tenha tempo para este), o stress diário do trabalho, a necessidade cada vez mais constante de contratar pessoas estranhas para tomar conta dos filhos, as peculiaridades dos cenários que albergam os personagens, a relação entre a criança e ama enquanto esta filma uma curta-metragem, entre outras temáticas, que surgem filmadas de forma sublime. Não deixa de ser curioso como a desorganização da casa da protagonista é completamente dicotómica da organização das obras de Hou Hsiao-hsien, algo que fica visível em "Le Voyage du Ballon Rouge", uma obra que este desenvolveu em homenagem à curta-metragem de Albert Lamorisse, intitulada "Le Ballon Rouge", na qual é visível toda uma preocupação em aproximar a obra do real, em criar situações verosímeis com a realidade, enquanto o balão vermelho sobrevoa a realidade e alarga a imaginação da narrativa.
  Desenvolvido a convite de Musée D'Orsay de Paris, "Le Voyage du Ballon Rouge" é muito mais do que uma homenagem à curta-metragem de Albert Lamorisse, é uma ode ao cinema e a tudo aquilo que este representa, numa obra onde a aparente distância entre os personagens e a câmara é ilusória, com as imagens em movimento a transmitirem sensações tão quentes como as tonalidades vermelhas do balão voador. A beleza estética das suas obras, sobretudo a partir do início da colaboração com o director de fotografia Mark Lee, são uma das imagens de marca das obras de Hou Hsiao-hsien, e em "Le Voyage du Ballon Rouge" isso é algo que fica bem representado. Desde a sincronia da cor vermelha com o balão que voa e aquece a imaginação dos personagens e dos espectadores, as vestes vermelhas da personagem de Binnoche e as cortinas encarnadas da sua casa, uma cor quente e ardente, que contrasta com os sentimentos esbatidos pelos personagens, algo representado pela luz difusa que permeia a casa da protagonista. Este é outro dos aspectos muito interessantes de verificar na obra, a forma como os cenários interiores e exteriores são explorados, a forma como estes interagem com o comportamento dos seus personagens, enquanto Hou Hsiao-hsien povoa a narrativa de pequenos elementos da sua cultura, onde não falta o teatro de marionetas, a cineasta de Taiwan que procura elaborar a sua curta, toda uma sensibilidade muito própria que faz este seu trabalho ser uma experiência cinematográfica singular. Acompanhado por uma banda sonora adequada, o filme é preenchido por um conjunto de interpretações bem conseguidas, destacando-se o nome de Juliette Binoche, numa obra simples, onde uma mulher procura ser bem sucedida em várias vertentes da sua vida pessoal, mas acaba quase sempre por manter uma relação de afastamento com todos os que lhe são próximos, ao mesmo tempo que é abordada a relação entre a criança e a sua ama e o fraco relacionamento que o petiz tem com a progenitora.
 Nome de especial importância no cinema de Taiwan, nomeadamente, na chamada "Nova Vaga" do Cinema de Taiwan (não confundir com Tailândia), Hou Hsiao-hsien é um caso peculiar no qual o seu reconhecimento junto da crítica, cineastas, festivais é dicotómico com a sua relação com o grande público. "Le Voyage du Ballon Rouge" coloca-o pela primeira vez na Europa, num filme protagonizado por um nome sonante do cinema francês contemporâneo, mas o que sobressai ao longo da obra é a manutenção do estilo e sensibilidade própria dos filmes do cineasta, uma sensibilidade que permite transformar a visualização das obras de Hou Hsiao-hsien em momentos muito próprios, que apelam aos nossos sentidos, sentimentos, um mundo à parte que é sempre um prazer revisitar. Longe de Taiwan, próximo do seu estilo de filmar, Hou Hsiao-hsien tem o condão de transformar momentos aparentemente simples em situações de grande significado e beleza, nas quais experienciamos momentos únicos, sejam as suas histórias em Taiwan, na China e até em Paris, a cidade luz que ganha um brilho reluzente em "Le Voyage du Ballon Rouge".


Classificação: 4 (em 5)
Título original: “La Voyage du Ballon Rouge”.
Título em Português: Hou Hsiao-hsien.
Argumento: Hou Hsiao-hsien e François Margolin.
Elenco: Juliette Binoche, Simon Iteanu, Song Fang, Hippolyte Girardot, Louise Margolin, Anna Sigalevitch.

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