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Thursday, 27 December 2012

 Quando procuramos pela definição de vício no Google, uma das primeiras definições que nos surge remete para a Wikipedia: "Vício é um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem". Este significado assenta que nem uma luva a William "Whip" Whitaker, o personagem interpretado por Denzel Washington em "Flight". O primeiro contacto que temos com "Whip" não mostra uma figura simpática. Este é acordado por uma chamada, começa a beber vodka, fumar e snifar cocaína, enquanto está ao lado da amante e a falar com a ex-mulher sobre o filho. Tudo isto seria normal, não fosse "Whip" um piloto de aviões que se encontra prestes a embarcar no próximo voo, em direcção a Atlanta. Farda vestida, ósculos escuros a esconderem o ar ressacado, este entra no interior do avião como se não fosse nada com ele. Uma zona de turbulência é o primeiro sinal para o desastre que aí vem. Quando todos pensavam estar salvos, o avião conhece um problema que leva a uma aterragem de emergência que apenas não termina numa desgraça maior graças ao engenho de Whip que numa manobra arriscada consegue aterrar violentamente o avião.
 Gravemente ferido, Whitaker é visto como um herói ao ter conseguido salvar grande parte dos tripulantes (96 vidas num total de 102 pessoas presentes no avião). O pior está para vir quando a sua conduta é colocada em causa e chega Hugh Lang (Don Cheadle), um advogado que logo coloca o piloto ao corrente da possibilidade deste ser acusado de negligência e do facto de ter acusado positivo no teste de consumo de álcool e drogas. O acto heróico de "Whip" começa aos poucos a esbater-se perante a ferocidade com que o mito do herói é desconstruído, enquanto Robert Zemeckis desenvolve um drama humano onde o vício arrisca-se a destruir um ser humano consumido pelas suas vontades.
 "Flight" marca o regresso de Robert Zemeckis à realização de filmes em live action, após ter realizado "Polar Express", "Beowulf" e "A Christmas Carol", um retorno que se revela relativamente feliz, mas que não está livre dos seus percalços. Sem a animação em CGI, Zemeckis desenvolveu um drama humano intenso sobre a quebra de um mito, a destruição de um homem cujo vício pelas bebidas alcoólicas destrói tudo à sua volta e promete levá-lo ao abismo do seu ser. O acidente de avião ocorrido na primeira metade do filme é apenas o catalisador da narrativa centrada no protagonista, com as suas consequências a afectarem a vida de William Whitaker, um indivíduo pouco simpático e cheio de defeitos, que o argumento inteligentemente expõe de forma paradigmática antes do acto heróico, demonstrando que este é uma figura bem mais complexa do que pode parecer. Grande parte do filme centra-se exactamente na exposição desta destrutiva figura, que é o combustível para a narrativa avançar. Considerado um herói por muitos, este piloto tem na aterragem espalhafatosa a sua hubris, tendo de lidar com a punição dos seus pecados quando é aberto um processo de negligência devido a ter pilotado bêbado e drogado, um processo que vai afectar a sua vida, mas não diminui o seu vício, enquanto Denzel Washington mostra mais uma vez o seu talento na arte da representação.
 Washington interpreta de forma eficaz e intensa o papel deste piloto cuja perdição é esperada a cada momento, que não parece ser capaz de enfrentar os seus problemas e aos poucos coloca em causa a sua carreira profissional, destrói o casamento, a relação com o filho e até com Nicole (Kelly Reilly), uma jovem viciada em recuperação que conhecera no hospital. Nicole é o ponto dicotómico do personagem de Washington. Enquanto esta procura recuperar e mudar de vida, William parece não estar muito preocupado com as consequências dos seus actos, envolvendo-se numa espiral destrutiva que afasta todos de si, excepção feita às garrafas de whisky. Este não é uma figura agradável ao espectador, muito pelo contrário, existe muito pouco com que simpatizar com esta personagem, que parece preferir estar escondido pelas sombras, inebriado da realidade, ao invés de assumir os seus erros e pecados. Essas sombras que cobrem os destinos do protagonista surgem adensados pelo trabalho de fotografia, com a iluminação a meia-luz a permear frequentemente William, seja na sua habitação, seja num bar, este protege-se em locais isolados onde a bebida é a sua única companhia fiel.
 "Flight" não é um filme catástrofe centrado num avião em queda. O filme procura acima de tudo mostrar as consequências que um acidente de avião teve na figura de um piloto que com uma manobra heróica conseguiu salvar grande parte da população. Este poderia ser um herói, mas ao longo de "Flight" o que temos é exactamente a desconstrução da figura do herói, a queda da lenda, que se auto-destrói, um pouco à imagem da própria narrativa do filme que promete muito mais do que aquilo que dá. Denzel Washington tem uma boa interpretação, o trabalho de fotografia é bastante coeso, a banda sonora surge cheia de estilo (não faltam temas dos Rolling Stones), Robert Zemeckis mostra que as suas qualidades como realizador continuam intactas, mas a história arrasta-se em demasia e aos poucos ameaça perder algum do seu interesse, até chegar ao seu emotivo final. Se o argumento de "Flight" é competente a desenvolver a personalidade complexa de Whip, o mesmo não se pode dizer do desenvolvimento do relacionamento deste com os personagens secundários. Ao longo do filme é possível vermos o personagem de Washington a destruir-se e a destruir a relação com o filho, a jovem Nicole e com todos os que se aproximam de si, incluindo o advogado Hugh Lang e o seu amigo Charlie Anderson (Bruce Greenwood), um conjunto de destruições de laços que nem sempre são desenvolvidos pela narrativa e raramente espelham a ambição da narrativa. O caso da família é notório da inabilidade do argumento em desenvolver as temáticas dos laços de Whip, com a relação complicada entre o protagonista e o filho a raramente ser convincente, tal como a relação amorosa como Nicole raramente sai do rumo dos clichés, com ambos os elementos a surgirem para darem alguma emotividade, mas sempre de forma algo artificial.
 A destruição de um indivíduo perante o vício e a sua incapacidade para alterar a situação não é uma temática propriamente nova, mas "Flight" consegue ultrapassar essa situação e expor a mesma de forma interessante e provocativa, colocando algumas questões polémicas ao espectador. Será que Whip não pode ser considerado um herói? Teriam morrido mais pessoas sem o seu talento na aviação? Poderiam ter sido salvas as outras seis pessoas? A certa altura do filme fica latente que este é um piloto talentoso, que podia ser um herói, mas acaba por destruir tudo com a mesma facilidade que esvazia uma garrafa de vodka. Durante uma cena de "Flight", "Whip" salienta que "No one could have landed that plane like I did. No one". Essa pode ser uma verdade, o problema é que este desenvolveu esse acto heróico sob o efeito de álcool e drogas, algo considerado inadmissível para quem pilota um avião. De herói a vilão, Whip bebe porque quer, porque não consegue parar, nem parece querer largar este hábito. Este está preso ao seu vício, à sua destruição, enquanto "Flight" prende o espectador para o interior de um drama intenso, no qual é apresentado à desconstrução de um herói, um indivíduo tão capaz de protagonizar actos heróicos como de os estragar, ou seja, um ser humano.

Classificação: 3.5 (em 5).

Título original: "Flight".
Título em Portugal: "Decisão de Risco".
Título no Brasil: O Voo. 
Realizador: Robert Zemeckis. 
Argumento: John Gatins.
Elenco: Denzel Washington, Kelly Reilly, John Goodman, Melissa Leo, Don Cheadle, Bruce Greenwood.

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