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Friday, 7 December 2012

 Inspirado no livro "On the Road", de Jack Kerouac,Walter Salles desenvolve em "Pela Estrada Fora" uma homenagem ao movimento beat do final dos anos 50 e início dos anos 60, através das aventuras e desventuras de Sal Paradise (Sam Riley) e Dean Moriarty (Garrett Hedlund), enquanto estes partem "pela estrada fora" em busca de desfrutarem o momento, de desenvolverem laços e desafiarem as regras. Seja acompanhados pelo fatalista Carlo Marx (Tom Sturridge), pela bela e extrovertida Marylou (Kristen Stewart), pelo carismático Bull Lee (Viggo Mortensen), esta dupla parece revelar-se inseparável ao longo dos vários e irrequietos momentos. Como salienta Dean, estes gostam de "movimentar-se" e é nesse movimento constante, de desafiar a vida de o destino, de desafiar as regras e as convenções, de gozar o momento e aproveitar cada dia como se fosse o último que os personagens de "Pela Estrada Fora" actuam. Sal Moriarty, o alter-ego do escritor Jack Kerouac, pretende escrever um livro e procura pelas suas deambulações pelo território a sua fonte de inspiração. Dean, um personagem baseado em Neal Cassady procura apenas viver o momento, apaixonar-se e apaixonar (seja por mulheres ou homens), enquanto é encarado como um Deus por aqueles que o seguem e como um demónio por todos aqueles que o odeiam.
 Entre muitas loucuras, drogas, sexo, músicas, literatura (não falta a presença de "Swan's Way de Marcel Proust), estes dois vão conhecendo e reencontrando as mais diversas figuras. Desde a fogosa Marylou, que partilha uma relação com Dean e por vezes com Sal, passando pelo carismático Bull Lee, o fleumático Carlo Marx (inspirado em Allen Ginsberg), a bela Camille (Kirsten Dunst), vários são os personagens que povoam as viagens e momentos da vida destes personagens, enquanto viagem "pela estrada fora" em direcção a vários territórios dos Estados Unidos da América (e até do México), quais rebeldes sem causa que parecem fadados a desafiar a sociedade conservadora do seu tempo e viver o momento num território muito marcado pela Guerra Fria (ainda influenciado pelo Macartismo). Com especial incidência na história de Sal Paradise, quem acaba quase sempre por destacar-se é Dean Moriarty, enquanto colecciona paixões e desilusões, ama e desilude, formando uma forte amizade com Sal, quase próxima de um romance, apenas superada pelo amor que Walter Salles tem por estes personagens.
 Apaixonado pelos seus personagens e pelo contexto que os rodeia, Walter Salles desenvolve um road movie polvilhado por muita música, poesia, literatura, drogas e sexo (sobretudo quando Kristen Stewart está em cena). Esta paixão que tem pelo material que tem em mãos não só conduz a que Walter Salles traduza um pouco do ambiente dos elementos do movimento beat e das suas motivações, mas também que estenda a narrativa em demasia, a ponto de por vezes nos desinteressarmos dos personagens, deixando tudo ao sabor dos momentos que estes vivem, preenchendo a obra com pormenores que pouco ou nada acrescentam à história, mas nem por isso tiram o foco dos bons desempenhos de Garrett Hedlund e Sam Riley. Hedlund surge bem distante do Sam Flynn de "Tron: O Legado", ao interpretar um espírito livre que caminha errante pelo destino, que se perde por cada mulher que encontra, embora engravide Camille e tenha uma enorme tentação por Marylu, um indivíduo que não parece saber muito bem o que quer, a não ser gozar o momento, aproveitar aquilo que a vida lhe dá, enquanto Hedlund surge mais carismático do que nunca neste papel, chegando muitas das vezes a ofuscar o personagem de Riley. Se Hedlund interpreta um espírito livre que parece ser levado ao sabor do vento, Sam Riley interpreta o escritor Sal Paradise, um indivíduo sonhador, bem mais calmo que Dean, que procura escrever o seu livro. Entre estes dois temos muitas das vezes Kristen Stewart como a sensual e extrovertida Marylou, uma personagem que interpreta de forma eficaz, não desiludindo e mostrando mais uma vez que quando quer é expressiva, sensual e dinâmica, embora a sua personagem nunca consiga exceder a importância do "bromance" entre Dean e Sal.
 Esta amizade entre Dean Moriarty e Sal Paradise, única e cheia de revezes, nem sempre racional, surge como um dos cernes da narrativa, um bromance de dois indivíduos que desafiam o destino e as convenções da sociedade. Desligados dos bens materiais, estes representam os ideais do movimento beat, do qual o livro "On the Road" é um símbolo, um movimento que surge representado ao longo do filme, através destes personagens inconformados, hedonistas, algo anárquicos, que procuram ir contra o sistema, as regras, vivem no limite, desfrutam do sexo, drogas, música, literatura como se não houvesse amanhã, algo visível ao longo das várias viagens que efectuaram ao redor dos Estados Unidos da América, pelas suas estradas, pelos seus territórios, um cenário marcado pelos acontecimentos do pós-II Guerra Mundial, no qual, o anticomunismo e o conservadorismo parecem estar muito ligados à população. Ao contrário de grande parte da população norte-americana deste período, os elementos do movimento beat destacavam-se exactamente pela oposição às convenções da sociedade, ao status quo, enquanto procuravam desenvolver uma contracultura, retratar as suas experiências, viver o momento intensamente, no qual o sexo, drogas, música, literatura estão sempre presentes, um movimento no qual, sobressaem nomes como Jack Kerouac (o autor do livro do qual se baseia "Pela Estrada Fora", Allen Ginsberg, William Burroughs, entre outros, que tantas semelhanças partilham com os personagens que povoam a narrativa de 'Pela Estrada Fora' e evidenciam o bom trabalho de pesquisa efectuado para o desenvolvimento do filme.
 Com uma banda-sonora adequada ao momento, composta por temas originais de Gustavo Santaolalla, mesclados com temas musicais de nomes como Ella Fitzgerald e Slim Gaillard, "Pela Estrada Fora" traduz de forma bastante eficaz o sabor do momento vivido por esta geração ao longo dos anos 50, nos Estados Unidos da América, enquanto o magnifico trabalho do director de fotografia Éric Gautier exacerba os diferentes territórios por onde os personagens se deslocam ao longo da narrativa. A certa altura do filme pode parecer meio cansativo e sem algum sentido todo o estilo de vida que os personagens praticam, recheado de inúmeras viagens pelas estradas, com a narrativa a usar e abusar da representação das mesmas, algo que advém precisamente da reverência de Walter Salles para com os personagens e pelo movimento beat, pela procura de transmitir a aversão dos elementos deste movimento ao materialismo, a luta contra a intolerância (seja racial, sexual, etc), amantes do jazz, loucos por viver e por falar, intelectuais anti-establishment inconformados com um ardente desejo de viver, de partilharem experiências, que vivem para o momento e pelo momento, algo que surge eficazmente (mas nem sempre de forma emotiva) representado ao longo da narrativa.
 Sal Paradise e Dean Moriarty vivem para o momento, para lutarem pelos seus ideais, pelos seus sonhos, para desafiarem o destino e as convenções, dois jovens saudavelmente loucos e anti-establishment, que enfrentam as estradas mesmo que estas sejam tortuosas. Walter Salles, apaixonado por estes personagens, pela cultura e ambiente que os rodeia enfrenta algumas dessas estradas tortuosas, derrapa em alguns desses caminhos perigosos, mas é bem sucedido a percorrer a estrada do entretenimento, enquanto consegue transmitir o sabor do momento vivido pelos personagens, os seus ideais, num road movie que transporta o espectador para o interior da geração beat, num retrato apaixonado que consegue criar no espectador uma certa nostalgia de um tempo não vivido e de partilhar alguns dos ideais utópicos destes personagens.


Classificação: 3 (em 5)

Título original: "On the Road".
Título em Portugal: "Pela Estrada Fora".
Título no Brasil: "Na Estrada".
Realizador: Walter Salles.
Argumento: Jose Rivera.
Elenco: Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Sam Reilly, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Amy Adams, Alice Braga.

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