Breaking News
Loading...
Tuesday, 11 December 2012

 Com o anúncio da adaptação de "The Hobbit" ao grande ecrã, vários foram os fãs da saga cinematográfica de "O Senhor dos Anéis" que se entusiasmaram com o projecto, bem como os fãs dos livros de J.R.R. Tolkien. Inicialmente com Guillermo del Toro como realizador da adaptação, este logo teve de abandonar o cargo devido a vários contratempos e dar o lugar a Peter Jackson, o realizador da trilogia original de "O Senhor dos Anéis", algo que adensou o  entusiasmo dos fãs. Peter Jackson assumiu relutantemente o desafio e aos poucos deslumbrou-se com o material que tinha em mãos, um deslumbrar que levou a estender a adaptação a três filmes, ao invés das duas obras cinematográficas inicialmente previstas, com um livro de 376 páginas, acrescentado com alguns apêndices à história escritos por Tolkien e explorados extensivamente pelo cineasta, a ter direito a tantas obras cinematográficas como a trilogia literária de "O Senhor dos Anéis". Esta situação explica e muito o facto de "The Hobbit" apresentar claros problemas a nível de argumento e de fluência narrativa, não devido a estar mau escrito, mas sim por raramente apresentar conteúdo que consiga preencher a narrativa de forma coesa ao longo das quase três horas de duração, com Peter Jackson a povoar a narrativa de momentos que mostram a sua reverência para com os personagens, os cenários e todo o universo tolkiano, que servem acima de tudo para agradar aos fãs mais acérrimos.
  Algumas das cenas do primeiro terço de "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada" são exemplo dessa reverência para com o material literário e cinematográfico da saga "O Senhor dos Anéis", ao termos Bilbo (Martin Freeman) acompanhado por Frodo (Elijah Wood), numa cena a servir de ligação a "O Senhor dos Anéis", até Bilbo Baggins recuperar a história do seu passado. Curiosamente, a história do seu passado (sessenta anos antes dos acontecimentos da trilogia de "O Senhor dos Anéis") é igualmente penosa para começar a avançar, em particular o jantar em casa de Bilbo, no qual este recebe os treze anões liderados por Thorin (Richard Armitage) na sua casa, devido ao facto de Gandalf ter reunido os mesmos no lar do protagonista. Uma reunião que serve para Bilbo ser convidado por Gandalf para ajudar os anões a enfrentar o Dragão Smaug e a recuperar o reino de Eriador, uma iniciativa que se estende durante imenso tempo para Peter Jackson poder preencher a narrativa de momentos pitorescos, recheados de humor, que não adiantam nem atrasam, não servem para apresentar os anões (saber o nome não chega) e estendem a narrativa em demasia até chegarmos ao essencial: Bilbo é o escolhido por Gandalf para ajudar os anões a derrotar Smaug, algo que promete colocar em risco a vida do Hobbit. Porque é que Bilbo foi escolhido? Porque o dragão conhece o cheiro dos anões, mas não o do Hobbit, algo que promete ser uma vantagem para os intrépidos heróis para reconquistarem Eriador
 A restante narrativa é fácil de adivinhar e surge eivada de elementos dos filmes de "O Senhor dos Anéis". Não falta o herói improvável, desta vez Bilbo Baggins (escolhido de forma semelhante ao sobrinho Frodo) que parte à aventura, enquanto tem de lidar com inúmeros perigos e estranhas criaturas, em particular os orcs, liderados por Azog, seres ameaçadores que proporcionam antagonistas de peso para os nossos heróis; batalhas violentas, que têm no último terço do filme alguns dos momentos mais emotivos, enquanto o personagem tem de lidar com problemáticas relacionadas com as saudades de casa, as dúvidas das suas capacidades e a desconfiança dos anões. Se os orcs e trolls se metem no caminho de Bilbo e companhia, o mesmo se pode dizer de Gollum, o célebre personagem interpretado por Andy Serkis (que já era nomeado para o Óscar por este papel), que promete fazer a vida negra ao protagonista, bem como a colocá-loem contacto com o seu "precioso" anel, enquanto a narrativa deixa várias pontas soltas para os próximos dois filmes de "O Hobbit".
No final de "O Hobbit: A Viagem Inesperada" é praticamente impossível não estabelecermos uma ligação com "Star Wars: Episode I". Ambos ficam a anos-luz dos filmes da trilogia inicial, os realizadores apresentam uma reverência excessiva pelo universo que têm em mãos e pelo dinheiro que estes filmes proporcionam, tendo em vista uma vertente mais comercial e menos artística, explorando o filão lucrativo que têm em mãos. Isso não implica que Peter Jackson não tenha um talento inegável para criar um universo fantástico, que surge em todo o seu esplendor nesta obra visualmente brilhante, na qual sobressai uma estética apurada (bom trabalho do director de fotografia Andrew Lesnie), cenários magníficos, uma banda sonora que imprime um clima épico à narrativa, que não encontram paralelo no argumento frágil (não pela qualidade da escrita, mas sim por raramente sustentar a longa duração do filme). Este é o calcanhar de Aquiles do filme, procurar estender em demasia a narrativa, povoar a história de pequenos elementos que podem ser engraçados mas não acrescentam nada, numa história que de inesperada tem apenas o título da obra, num filme de aventuras que tem como ponto forte os magníficos cenários e as cenas de acção, muitas das vezes violentas, nas quais sobressaem criaturas fantásticas como os orcs, gigantes de pedra, trolls, entre outros seres, que proporcionam alguns momentos emotivos, nos quais a narrativa passa a contar com tonalidades mais negra, quer a nível de iluminação, cores e estados de espirito dos personagens. Diga-se que as cenas de acção e o universo fantástico são um dos pontos fortes de "O Hobbit: Uma Viagem Inesperada", com Peter Jackson e a sua equipa a fazerem valer o orçamento de largos milhões e a proporcionarem um espectáculo visual belíssimo, no qual, somos apresentados aos vários cenários da Terra Média, pelos quais se deslocam Bilbo, os treze anões e Gandalf, fazendo-nos sentirinvadidos por um sentimento de nostalgia por voltar a ver alguns destes locais e personagens de regresso ao grande ecrã.
 Este sentimento nostálgico, surge provocado em grande parte devido a um regressar ao universo de "O Senhor dos Anéis", onde não falta a presença de uma Galadriel (Cate Blanchett) imponente como sempre, o regresso de Gollum, a banda sonora de Howard Shore, os cenários do Shire, a casa de Bilbo, a presença de Frodo no início do filme, sendo que a própria estrutura narrativa apela a essa nostalgia, não faltando uma relação entre Bilbo e Thorin a fazer recordar Frodo e Aragon (ainda que de forma algo forçada), as mensagens sobre a necessidade de ter coragem e espírito de sacrifício, enquanto assistimos à jornada de um pequeno Hobbit a viver grandes aventuras, tendo o primeiro contacto com o famoso anel de Sméagol. Enquanto Bilbo Baggins inicia a jornada que promete transformar a sua vida, Martin Freeman tem um desempenho muito positivo a interpretar este intrépido Hobbit, conseguindo transmitir a transformação do personagem ao longo narrativa, enquanto este se torna no herói improvável, sendo uma das boas adições da saga, a par de Richard Armitage como o sisudo Thorin. No entanto, quem brilha são dois veteranos da saga "O Senhor dos Anéis". Se Ian McKellen enche o grande ecrã com o seu carisma como Gandalf, já Andy Serkis é uma lufada de ar fresco na narrativa, com o "seu Gollum" a ser o elemento mais "precioso" do filme, transmitindo uma aura de perigo e loucura, aliados a uma dose de nostalgia, que transformam os seus momentos no grande ecrã em pura magia.
 Se a presença de Gollum é pura magia, momentos negros e carismáticos, o mesmo não se pode dizer do argumento do filme, que raramente consegue ter conteúdo para preencher as três horas, notando-se uma clara necessidade de encher a narrativa, de efectuar ligações com os restantes três filmes da saga, mesmo que estes elementos nem sempre se coadunem com o tom mais leve da narrativa, algo que mesmo assim não chega para resolver várias pontas soltas em relação à história, que certamente vão ser resolvidas nas próximas obras. Apesar dessas pontas soltas, é de salientar a eficácia com que o filme consegue deambular entre o tom mais leve e bem-humorado (inerente ao livro) e a violência inerente à jornada dos personagens, numa aventura emotiva, na qual Peter Jackson faz o espectador regressar à Terra Média e aos seus belos e por vezes negros cenários.
 A certa altura do filme, Bilbo revela a Gandalf que apenas se lembra do poderoso feiticeiro devido a este ser o responsável pelo fogo-de-artifício das festarolas do Shire. Um dos problemas de "O Hobbit: Uma Viagem Inesperada" é a trilogia de "O Senhor dos Anéis" ainda estar bastante fresca na memória, todos aqueles momentos clássicos, obras elaboradas por um Peter Jackson em plena procura de afirmação na carreira que procurava levar a sua grande paixão ao grande ecrã, com a máxima lealdade e respeito ao material de origem, apesar das devidas alterações para bem da fluidez narrativa. "O Hobbit: Uma Viagem Inesperada" não só surge como uma prequela onde se nota claramente que o empenho de Jackson não foi o mesmo, tendo deixado de lado aquela paixão por um filme de aventuras emotivo, mas que nunca chega a atingir a qualidade dos filmes anteriores, e pior que isso, presta um mau serviço ao tentar esticar uma história em demasia, que não tem conteúdo para mais do que um filme, quanto mais para três. Com Peter Jackson a surgir em modo George Lucas, é impossível não notar como o primeiro volume da adaptação cinematográfica de "O Hobbit" apresenta claras semelhanças com o que aconteceu com "Star Wars: Episode I", onde podíamos encontrar uma das mais enfadonhas obras da saga "Star Wars", na qual a paixão foi substituída pelo pragmatismo do negócio, num filme que raramente consegue atingir o nível das obras originais. Peter Jackson não falha por completo, está longe de se espalhar ao comprido, mas também está longe de transportar para o espectador aquela paixão criada pela saga "O Senhor dos Anéis", aqueles momentos únicos que surgem a espaços em "O Hobbit: Uma Viagem Inesperada", mas nunca de forma regular. Com um visual belíssimo, o primeiro capítulo da saga cinematográfica de "O Hobbit" abre de forma morna, destacando-se pelo mundo fantástico criado por Peter Jackson, ao mesmo tempo que apresenta a história de Bilbo Baggins, o célebre episódio da conquista do anel a Gollum, a aventura do protagonista ao lado dos treze anões, uma aventura na qual a Terra Média volta a ser a casa do espectador, mas está longe de despertar os sentimentos apaixonantes da trilogia de “O Senhor dos Anéis”.


Classificação: 3.5 (em 5)

Título original: “The Hobbit: An Unexpected Journey”.
Título em Portugal: “O Hobbit: Uma Viagem Inesperada”.
Título no Brasil: “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”.
Realizador: Peter Jackson.
Argumento: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson, Guillermo del Toro.
Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Andy Serkis, Richard Armitage, James Nesbitt, Adam Brown, Elijah Wood, Cate Blanchett, Hugo Weaving, Christopher Lee.

0 comments:

Post a Comment