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Monday, 10 December 2012


"Como penitência pela revolta, cada distrito deverá oferecer um rapaz e uma rapariga entre 12 e 18 anos numa "colheita" pública. Os tributos serão entregues à custódia da capital. E depois transferidos para uma arena pública, onde vão lutar até à morte até restar apenas um vencedor. De agora e para sempre esta cerimónia será conhecida como The Hunger Games".


 É com esta explicação acima mencionada que começa "The Hunger Games", a adaptação do primeiro volume da famosa saga literária criada por Suzanne Collins, na qual um grupo de adolescentes é colocado numa luta mortal pela sobrevivência. Num futuro distópico, na nação de Panem, na qual as diferenças sociais são mais do que muitas (mas raramente exploradas pela narrativa), nas quais existe uma capital opulenta e doze distritos desfavorecidos, dos quais têm de sair todos os anos dois elementos para participarem nos "Jogos da Fome". O jogo é muito semelhante a qualquer reality show contemporâneo e a reacção do grande público é efusiva como nos dias de hoje, onde a expulsão de um concorrente pode ser encarada com maior escândalo do que o aumento galopante do desemprego. No caso de "The Hunger Games", os concorrentes não têm de esconder segredos, não têm de embebedar-se, nem espelhar a sua falta de inteligência, mas sim lutar pela sobrevivência. Diga-se que esta é uma temática já explorada em filmes como "Battle Royale", no qual um grupo de jovens tinha de lutar pela sua sobrevivência. Sem a violência, nem a crueza e fulgor de "Battle Royale", a adaptação cinematográfica de "The Hunger Games" revela-se um drama adolescente eficaz, onde a violência e o sangue surgem de forma contida para escaparem a uma classificação etária menos lucrativa para o estúdio, enquanto acompanhamos a história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) na sua jornada pela sobrevivência ao longo de um filme onde temos sempre presente que nada de grave lhe vai acontecer, pois sabemos que mais sequelas vêm a caminho.
 Se este "pequeno detalhe" de cada vez mais assistirmos a filmes cujo final fica em aberto, qual série televisiva que nos obriga a esperar pelas próximas semanas pelos desfechos da narrativa, tira algum peso da narrativa, por sabermos de antemão qual o desfecho da história da protagonista, a verdade é que Gary Ross consegue desenvolver um blockbuster relativamente interessante e eficaz, que acrescenta todos os condimentos para transformar o filme numa boa dose de entretenimento, embora fuja a várias das perguntas e temáticas importantes. Como encaram os familiares dos concorrentes as suas participações nas provas? Ao longo da história da competição nunca ninguém se revoltou? Quais os interesses da população da capital nos distritos? Quais as motivações dos adversários da Katniss (a maioria são personagens completamente unidimensionais)? Quais as verdadeiras intenções do Presidente Coriolanus Snow (Donald Sutherland)? Muitas perguntas que podem ser colocadas e que infelizmente não são respondias, que não tiram o factor de entretenimento de "The Hunger Games", mas revelam mais uma vez o exagero de elogios que colocaram esta obra nos píncaros dos blockbusters de 2012. O filme não é péssimo, está longe de ser medíocre, mas também está longe de ser uma obra-prima. Entretém, é verdade, e isso já é algo de bom nos dias de hoje.
 Com um desempenho bem conseguido de Jennifer Lawrence, que revela mais uma vez a capacidade de dar uma dimensão acima da média às suas personagens, "The Hunger Games" acompanha a jornada de sobrevivência de Katniss Everdeen ao longo dos "Jogos da Fome". Inicialmente, esta nem deveria ser a escolha inicial para representar o Districto 11. Perante o facto da sua irmã mais nova, Primrose (Willow Shields), ter sido seleccionada, Kantniss decide voluntariar-se para o lugar da irmã e participar nestes mortais jogos. A acompanhar Katniss vai Peeta Mellark (Josh Hutcherson), o representante masculino do Districto 11, cujos sentimentos em relação a Katniss parecem variar entre o amor platónico/oportunismo e amizade/ inveja.
 A entrada destes dois nos chamados "Jogos da Fome" não é feita à bruta. Gary Ross prefere apresentar as características deste jogo, enquanto povoa a narrativa de alguns excêntricos e diversos personagens, nos quais, não falta a colorida Effie Trinkek (interpretada de forma enérgica por Elizabeth Banks), o treinador beberrão Haymitch Abernathy (Woody Harrelson a fazer de Woody Harrelson); o simpático Cinna (interpretado de forma regular por Lenny Kravitz); Caesar Flickerman, o excêntrico apresentador da competição interpretado por Stanley Tucci; Seneca Crane (Wes Bentley), um dos obscuros apresentadores do concurso. Grande parte da primeira metade do filme serve acima de tudo para estabelecer este universo que povoa os personagens, sendo visível a dicotomia entre a opulência da capital e de todo o ambiente que rodeia o espectáculo, em contraste com o depauperado cenário do território do Districto 11, uma dicotomia que é pouco explorada, ao contrário da necessidade de Katniss e Peeta terem de aprender a lutar para sobreviverem, para conquistar o público e patrocinadores que ajudem durante a competição, algo que aos poucos resulta numa certa modificação de Katniss, que vai surgindo mais desenvolta ao longo do filme. Quando começam os jogos, alianças são formadas, mortes são avistadas e Katniss terá de lutar pela sua vida neste concurso desalmado, onde raramente acreditamos que está verdadeiramente em perigo.
 Ao longo do filme é impossível não pensar em como Gary Ross poderia ter elevado a dimensão desta obra se tivesse tocado nas questões fracturantes da sociedade contemporânea, tivesse adensado a violência a um nível mais gráfico (estamos perante um concurso onde personagens que lutam pela vida, o perigo pode e deve obrigatoriamente ser evidenciado), colocando a protagonista em verdadeiro perigo. Ross segue o caminho do entretenimento, em dar ao espectador aquilo que este espera, algo que resulta num dos filmes com um dos resultados de box office mais positivos do ano, tendo alcançado impressionantes 686 milhões de dólares ao redor do Mundo (para um orçamento de 78 milhões), que revelam e bem o apelo de "The Hunger Games" junto do público.
 Tendo como base uma saga literária com grande apelo junto do público, Gary Ross consegue desenvolver com alguma competência um filme de aventura recheado de acção, drama e algum romance adolescente, no qual Liam Hemsworth é colocado perante um papel secundário (sim, apesar de o personagem ganhar importância nos filmes posteriores, mas neste filme é uma nulidade) e Josh Hutcherson tenta formar um par romântico com a personagem de Jennifer Lawrence, que raramente resulta, com o personagem masculino a ser sempre ofuscado por Lawrence, que foi uma escolha bastante feliz para esta saga.
Se o romance não resulta, o mesmo não se pode dizer do clima negro que Ross atribui à narrativa, colocando os personagens a lutarem pelas suas vidas no interior de um cenário selvagem, no qual o público se diverte a assistir aos assassinatos, qual plateia de um coliseu romano à espera que os gladiadores se travem de razões, e a organização propicia estes encontros mortais. A violência está presente, quer psicológica, quer emocional, mas falta-lhe nervo, falta-lhe colocar a protagonista em perigo, ao invés de ir colocando como vitimas personagens que pouco ou nada interessam (com uma excepção), ao mesmo tempo que o sangue e a violência gráfica é colocada de lado, para bem das bilheteiras e de não causar o excessivo choque no público, parecendo muitas das vezes um genérico de "Battle Royale". É problemático não comparar "The Hunger Games" e "Battle Royale", tendo em conta as premissas muito semelhantes de ambas as obras e sobretudo pela dicotomia apresentada em ambos os filmes. "Battle Royale" procura exacerbar todo o clima negro e perigoso em volta dos personagens, sejam estes quais forem, provocar o choque, mostrar que os personagens estão perante uma representação real do Inferno, mostrar todo o ambiente louco que os rodeia, enquanto em "The Hunger Games" tudo surge de forma matizada, de forma a não chocar em demasia, fugindo a questões importantes (como as acima enunciadas), faltando-lhe o nervo e a coragem necessária para elevar a obra para algo acima do entretenimento.
 O mais curioso em "The Hunger Games" é verificar como todo aquele início promissor, onde não falta uma apresentação a alguns elementos que rodeiam a narrativa, um conjunto de interpretações interessantes (sobretudo de Jennifer Lawence, Elizabeth Banks, Woody Harrelson), logo começa a perder força com o avançar da narrativa, onde percebemos que Gary Ross não está disposto a correr riscos e a tentar preencher o enredo de elementos que procurem agradar o público e desenvolver um romance que não resulta, em grande parte pela falta de carisma e de algum talento de Josh Hutcherson.
No final, fica a sensação que "The Hunger Games" poderia ter sido um dos excelentes filmes deste Verão, uma obra onde poderia ir mais além do que o mero entretenimento e explorar questões fracturantes que deveriam ser abordadas ao longo da obra, que pede ousadia e não romance adolescente, que exige nervo e não medo em provocar, ao mesmo tempo que se torna particularmente pouco emocionante saber que a protagonista não corre perigo (estamos perante uma franquia, era a mesma coisa que matar o Homem-Aranha e a seguir ir fazer uma sequela do filme sem o personagem).
 A certa altura do filme Katniss Everdeen questiona Cinna sobre se este apenas estava ali para deixá-la bonita. Esta é uma pergunta que devia ser feita a Gary Ross. "The Hunger Games" é um belo filme de entretenimento, recheado de caras bonitas, algumas boas interpretações, cenas de acção competentes, mas que atribuem uma beleza exterior à obra, um factor de entretenimento, mas nunca deixam escapar o sentimento de que falta sempre algo à obra para ser o "tal" blockbuster. "The Hunger Games" não é um mau filme; pelo contrário, proporciona mais de duas horas de entretenimento, alguns momentos intensos, exacerbados por uma banda sonora emotiva e uma Jennifer Lawrence em grande forma, mas nada mais do que isso.


Classificação: 2.5 (em 5)
Título original: “The Hunger Games”.
Título em Portugal: “The Hunger Games – Os Jogos da Fome”.
Título no Brasil: “Jogos Vorazes”.
Realizador: Gary Ross.
Argumento: Billy Ray, Gary Ross, Suzanne Collins.
Elenco: Jennifer Lawrence, Liam Hemsworth, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Wes Bentley, Donald Sutherland.

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