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Saturday, 15 December 2012

Vronsky: You're trembling. Are you cold?
Anna Karenina: We'll be punished.
Vronsky: Punished?
Anna Karenina: For being so happy.

A alegria de Anna Karenina certamente vai sair-lhe bastante cara, algo que parece estar bem presente no espírito da protagonista, como se pode verificar na citação acima colocada. Casada com Karenin (Basil Rathbone), um oficial do Governo com quem esta tem um filho (Freddie Bartholomew), a bela mulher cedo cede às tentações carnais e do desejo ao conhecer o Conde Vronsky (Frederic March), algo que a promete condenar à tragédia.
  Diga-se que não faltaram sinais do destino para a protagonista afastar-se de Moscovo e do Conde, entre os quais, a aterradora visualização de um atropelamento por um comboio quando chegara à cidade, tendo em vista a ajudar o seu irmão a reconciliar-se com a esposa. Esse sinal que deveria ter deixado Anna Karenina em estado de alerta, logo acaba por ser ignorado pela bela mulher, algo que promete trazer-lhe muitos dissabores, sobretudo quando a protagonista começa gradualmente a ceder às investidas de Vronsky e coloca em causa o casamento, a sua relação de proximidade com o filho, o seu estatuto na alta sociedade da Rússia imperial, numa atitude que a aproxima da tragédia. Entre galanteios, danças no baile, troca de gestos e olhares, Anna Karenina e Vronsky cedo começam a evidenciar sinais que podem ter algo mais do que uma simples amizade, uma relação adúltera na qual a protagonista conhece o amor e felicidade, uma paixão que nunca conhecera com Karenin, o seu marido, que logo procura encobrir as infidelidades da esposa e manter o bom nome junto da sociedade do seu tempo. O marido é bastante claro em relação a toda esta situação, se Anna Karenina sair de casa, esta nunca mais poderá voltar a ver o filho, um castigo severo que serve acima de tudo para punir a traição e a má fama que esta colocará na família, fazendo as delícias da alta sociedade russa.
 Baseado na obra literária homónima de Leo Tolstoy, "Anna Karenina", de Clarence Brown, é uma das mais notáveis adaptações cinematográficas inspiradas neste livro, que tem servido de base para um conjunto assinalável de obras cinematográficas, entre as quais "Anna Karenina" de Vladimir Gardin, "Love" de Edmund Goulding (também protagonizado por Greta Garbo), "Anna Karenina" de Julien Duvivier (protagonizado pela lendária Vivien Leigh), o recente "Anna Karenina" de Joe Wright, entre muitas outras adaptações. Se muitas foram as adaptações desenvolvidas, a verdade é que poucas atingiram o mediatismo e o estatuto de clássico da versão realizada por Clarence Brown, uma adaptação que consegue transmitir a aura trágica em volta da protagonista, uma desgraça que surge associada ao amor adúltero e à luxúria, à procura da protagonista em ser verdadeiramente feliz, algo visível na citação acima colocada quando a personagem interpretada por Greta Garbo mostra pouco entusiasmo em relação ao que o futuro lhe pode reservar, enquanto desafia o destino e as convenções da sociedade na Rússia imperial.
  Anna Karenina ganha uma dimensão trágica e frágil com Greta Garbo, uma actriz cujo talento e presença ajudam esta complexa personagem a ganhar traços memoráveis, sendo capaz de transmitir ao espectador os sentimentos dicotómicos de Karenina, enquanto Frederic March revela-se o par perfeito da protagonista, como o galanteador Conde Vronsky, um homem que se deixa encantar pela bela Anna Karenina e está disposto a tudo para conquistar o seu coração. No meio destes, sobressai ainda Basil Rathbone como o austero Karenin, o marido da protagonista, que não perdoa o facto desta pretender abandoná-lo por amar outro homem, sendo visível o contraste entre a frieza de Karenin e o emotivo Vronsky. Ao mesmo tempo que este trio brilha nos seus papéis, Clarence Brown revela a sua capacidade na realização cinematográfica, ao criar um clássico cinematográfico que tem marcado gerações, conseguindo entender como poucos o material que tinha em mãos, algo que contribuiu para criar uma apaixonante versão de uma das mais marcantes obras de Tolstoy, na qual se nota toda uma atenção ao pormenor. 
 Desde a capacidade de explorar o melhor que os actores têm para dar (Garbo surge soberba) até à qualidade dos diálogos, passando pela atenção aos gestos subliminares dos personagens, aos eventos do quotidiano (desde a vida familiar de Karenina, passando pelo período que vive com Vronsky) e extra-quotidiano (o baile permite apresentar algumas cenas belíssimas, a corrida de cavalos), um magnífico trabalho de fotografia que tira partido de toda a expressividade dos protagonistas (a utilização dos close-ups é muito frequente) e dos cenários, um guarda-roupa sumptuoso (as vestes de militar de Vronsky e as vestes de Anna Karenina), tudo parece combinar para dar a esta adaptação uma energia e encanto que a tornam numa obra cinematográfica memorável.
 Longe de apresentar uma relação sentimental floreada, "Anna Karenina" explora a conturbada relação extraconjugal entre Anna Karenina e o Conde Vronsky, uma relação que coloca esta mulher algo distante do estereótipo da esposa ligada ao ideal de lar e de família, mostrando uma mulher mais independente, que cede aos seus desejos e ao amor, mesmo que isso coloque em risco o seu casamento e a relação com o filho, uma relação destinada à tragédia e a afastar os próprios amantes, algo que surge exposto de forma paradigmático ao longo do filme. Se o romance entre Vronsky e Karenina, bem como a afeição da protagonista ao filho são temáticas desenvolvidas de forma bastante eficaz, não deixa de ser evidente a incapacidade da narrativa em desenvolver algumas subtramas, em particular o romance entre Lili (Joan Marsh) e Levin (Gyles Isham), que surge sempre de forma superficial e pouco elaborada, bem como a representação dos elementos da alta sociedade russa, num argumento preenchido por belas falas, embora nem sempre coeso.
 Na segunda vez que interpreta Anna Karenina no grande ecrã, Greta Garbo volta a demonstrar o porquê de todo o culto criado em volta da sua figura, uma actriz misteriosa, sensual, talentosa, que conseguiu transportar essa aura de diva para as suas personagens, parecendo que o papel de Anna Karenina foi feito à sua medida, transmitindo todo esse pathos da personagem, a sua sensualidade e fragilidade, toda a tragédia que parece carregar no seu interior, enquanto Clarence Brown transporta-nos para uma obra cinematográfica cheia de classe. No final, fica a sensação de estarmos perante um melodrama memorável, uma obra clássica onde Greta Garbo expõe o seu talento, uma história de um amor destinado à tragédia nascido no interior de uma infidelidade, uma história recheada de sinais tenebrosos que auguram a tragédia  e uma obra cinematográfica inesquecível.

Classificação: 4,5 (em 5)

Título original: “Anna Karenina”.
Realizador: Clarence Brown.
Argumento: Clemence Dane e Salka Viertel.
Elenco: Greta Garbo, Fredric March, Freddie Bartholomew, Maureen O'Sullivan, Basil Rathbone.

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