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Thursday, 20 December 2012

A certa altura de "The Master" podemos observar o personagem de Joaquin Phoenix a alinhar a sua máquina fotográfica, enquanto posiciona os clientes que frequentam a loja onde este trabalha temporariamente como fotógrafo. Se o espectador tivesse iniciado a visualização do filme nesta cena, muito provavelmente pensaria que o protagonista é um indivíduo metódico, com um estilo de vida tão imóvel como uma fotografia. Ledo engano. Numa dessas sessões fotográficas, Freddie Quill (Phoenix) não tarda em provocar um cliente, apertar-lhe a gravata, não tardando a haver uma troca de agressões, que logo causa a histeria e o seu despedimento. É o espírito revolto e selvagem do protagonista de "The Master" a vir ao de cima. Desde o início do filme que percebemos que Freddie não é um personagem vulgar e que tem na figura de Joaquin Phoenix o intérprete ideal para torná-lo arrebatador. É incrível a energia, o empenho, dedicação que Phoenix coloca neste personagem, que ganha uma dimensão simplesmente arrasadora graças a este actor, que se revela cada vez mais como um dos nomes mais talentosos da sua geração.
  No início do filme, podemos ver este marinheiro nos últimos dias de serviço no Japão, onde se encontra a cumprir serviço militar até à rendição incondicional do Japão e o final da II Guerra Mundial. Se os seus colegas marcham pelas escadas alinhados, Freddie é um desalinhado, um indivíduo obcecado por álcool e sexo, que é capaz de fornicar com uma boneca de areia com a mesma facilidade que vê órgãos genitais em todas as imagens dos testes psicológicos que são feitos para avaliar os traumas psicológicos que a Guerra causou na sua pessoa.
 Freddie Quill é o protagonista de "The Master", o novo e polémico filme escrito e realizado por Paul Thomas Anderson, uma obra que aborda a forte ligação entre um soldado traumatizado e o líder de um movimento religioso. Este movimento, inspirado livremente na Cientologia, cedo despertou as mais acesas polémicas, transportando o espectador para uma temática mais nebulosa dos Estados Unidos da América, na qual não falta a abordagem ao quotidiano no interior de um culto fictício chamado "A Causa", nem uma representação dos Estados Unidos da América do pós-Guerra, que não consegue reintegrar os seus ex-soldados. Duas temáticas representadas no período posterior à II Guerra Mundial, mas ao mesmo tempo tão actuais, ou não tivesse a Cientologia uma relevância importante junto de alguns sectores da sociedade norte-americana, sem esquecer o problema do regresso dos activos que se encontram em missões militares em países como o Iraque e Afeganistão, cuja integração promete ser complicada. Ciente da tarefa hercúlea que tem em mãos, Anderson não poupa detalhes na apresentação dos personagens e do ambiente que os rodeia, algo que nos permite dividir o filme em duas partes informais.
 Na primeira, "The Master" apresenta Freddie Quill, um veterano de Guerra que se procura adaptar com muito pouco sucesso à vida civil. Entre um emprego como fotógrafo falhado, trabalho numa plantação, este cedo deixa-se consumir pelo álcool e pelo seu estilo violento. Essa violência incontida, quase animalesca, exacerba as peculiaridades deste personagem invulgar, um indivíduo que delira com o corpo feminino, sexo e pela sua bebida alcoólica feita de "segredos", que inebriam os seus sentimentos e daqueles que o rodeiam. Quill passa a vida a correr, seja daqueles que o perseguem, de si próprio, da responsabilidade e do bom senso, algo que aos poucos parece querer mudar quando conhece Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o líder de um culto religioso chamado de "A Causa". Dodd é a antítese de Quill. Se o protagonista é selvagem, louco, levado pelas emoções, Dodd é um indivíduo frio, com bom poder da oratória, que aos poucos começa a desenvolver um culto religioso em volta da sua pessoa. Por um acaso do destino, Dodd e Quill conhecem-se, algo que resulta numa forte ligação entre mestre e aluno, quase próxima de pai e filho, de domador e fera, enquanto o personagem de Joaquin Phoenix vai aos poucos aderindo às ideias do líder religioso. Se na primeira parte tudo é fulgurante, com a narrativa a fluir com uma rapidez estonteante, ao mesmo tempo que Joaquin Phoenix dá um verdadeiro recital de representação e somos apresentados ao seu personagem. Na segunda parte tudo é mais lento, com Paul Thomas Anderson a procurar explorar a ligação entre Dodd e Quill, a evolução do culto "A Causa", a forma como a família do líder religioso reagiu à amizade entre estes dois indivíduos, enquanto o cineasta acaba por perder-se na tentativa excessiva de expor as práticas deste culto, que tantas semelhanças tem com a cientologia.
  Paul Thomas Anderson tem o estranho hábito de brindar os cinéfilos com obras cinematográficas primorosas, que têm conseguido reunir algum consenso junto da crítica, proporcionando momentos verdadeiramente memoráveis. Foi assim com "Magnolia" (1999), com "There Will Be Blood" (2007), e "The Master" promete seguir as pisadas das obras memoráveis do cineasta. Se se perde em alguns pormenores excessivos e desnecessários sobre o culto, não deixa de ser particularmente notável que tudo o resto parece resultar. Cada momento do filme parece ter sido filmado com um propósito, com a ideia de realçar o momento, sempre exacerbado pelo fabuloso trabalho de fotografia de Mihai Malaimare, Jr., naquela que é a primeira obra cinematográfica realizada por Paul Thomas Anderson sem a colaboração de  Robert Elswit. Cores saturadas, uma estética apurada, planos que transformam as imagens em movimento em obras de arte belíssimas surgem pela narrativa, enquanto Paul Thomas Anderson revela a sua arte em contar uma história e em tirar partido do talentoso elenco que tem entre mãos. 
 É simplesmente assombroso ver Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman a trocarem vários diálogos, momentos intensos, que variam entre a cumplicidade e a fúria, sobressaindo os diálogos confessionais que mantêm, enquanto o líder da seita procura educar o seu pupilo, um indivíduo meio selvagem, completamente nihilista, que tem em Joaquin Phoenix o seu corpo e alma. É impressionante, para não dizer arrebatador, o desempenho de Phoenix. Se encantou como Johnny Cash em "Walk the Line" (tendo perdido o Óscar de Melhor Actor para o colega de elenco, Philip Seymour Hoffman), em "The Master", Joaquin Phoenix chega simplesmente arrebatador, intenso, voraz de mostrar o seu talento, de mostrar que todas as críticas que lhe foram apontadas após "I'm Still Here" não devem ser colocadas no seu talento. Rebelde e excêntrico como os grandes génios, Phoenix dá alma ao seu personagem, vive-o, sente-o, transmite ao público o carácter auto-destruidor e nihilista do seu personagem, sendo notável os vários momentos que protagoniza, ficando particularmente na memória a cena na prisão na qual num acesso de raiva começa a pontapear tudo o que vê, enquanto se digladia de argumentos com o personagem de Hoffman.
 Se Paul Thomas Anderson se revela um artesão competente, capaz de tecer uma teia narrativa densamente elaborada (que no entanto, nemsempre corresponde à ambição do cineasta) e Joaquin Phoenix surge arrebatador, Philip Seymour Hoffman é outro dos nomes que promete gritar Oscar de Melhor Actor Secundário por todos os cantos. O seu personagem é um indivíduo ambíguo, bom orador e bon vivant, um charlatão que desenvolve um culto em volta de "A Causa", tendo como companhia a bela Peggy Dodd (Amy Adams), a sua esposa. Este é provavelmente um dos personagens mais polémicos do filme, ou não fosse inspirado no célebre Lafayette Ronald Hubbard, o conhecido criador da Cientologia e da Igreja da Cientologia no período posterior à II Guerra Mundial, um pouco à imagem de Dodd. Enquanto Hoffman procura fazer crescer o seu movimento e Quill segue errático, acompanhamos a forma como estes dois personagens contribuem para mudar o comportamento um do outro, sobretudo o protagonista, uma fera selvagem que parece manter um respeito inolvidável para com o seu líder.
 Esta temática polémica do culto religioso, das questões da fé e dos seguidores dos cultos, surge acompanhada pela representação do trauma do soldado no período pós-II Guerra Mundial e pela falta de integração dos mesmos na sociedade civil. Convém salientar que a representação deste tema não só recupera um problema antigo dos Estados Unidos da América (representado em várias obras cinematográficas), mas também remete para um paralelo contemporâneo, nomeadamente os soldados que regressam das missões externas norte-americanas (seja no Iraque, Afeganistão, entre outros). Quill, o personagem interpretado por Joaquin Phoenix, é o paradigma do soldado traumatizado, do indivíduo que matou o inimigo e a sua alma, enquanto procura erraticamente correr contra o destino e a realidade. É visível toda a negação deste indivíduo que, ao ser questionado por Dodd, cedo nega alguns dos problemas mentais que logo se tornam evidentes pelo seu comportamento algo selvagem e imprevisível.
 A imprevisibilidade do personagem interpretado por Joaquin Phoenix contrasta com todo a meticulosidade colocada por Paul Thomas Anderson na criação de "The Master", ao elaborar uma obra impressionante onde o argumento bem escrito surge aliado aos desempenhos magistrais de Phoenix e Hoffman, a banda sonora de Jonny Greenwood se reúne de forma harmoniosa com as imagens em movimento e a narrativa, resultando num filme que mostra mais uma vez que Anderson é um "Mestre" na realização cinematográfica.


Classificação: 4 em 5
Título original: “The Master”:
Título em Portugal: “O Mentor”.
Realizador: Paul Thomas Anderson.
Argumento: Paul Thomas Anderson.
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Bruce Goodchild, Ambyr Childers, Rami Malek.

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