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Sunday, 9 December 2012

  A certa altura de "Holy Motors" é possível que surjam questões como "para onde a narrativa nos leva?" e "o que se passa aqui?", fruto da estrutura arrojada e desafiadora utilizada por Leos Carax na sua primeira longa-metragem desde 1999, quandoviu ser lançado nas salas de cinema o seu "Pola X".Diga-se que a procura de encontrar respostas a estas perguntas tira grande parte do prazer de ver o filme, de deixar o protagonista, Monsieur Oscar, a viajar na sua limusina, por vários locais, interpretando diferentes encarnações, despertando no espectador um conjunto de díspares sensações, tirando-o da habitual estrutura narrativa conservadora e deixando-o perante uma anarquia na qual por vezes somos deixados ao abandono perante o grande ecrã.
 Sem grandes diálogos, sem uma estrutura narrativa que pareça conduzir a algum lugar, "Holy Motors" revela-se o espectáculo de Denis Lavant como Sr. Oscar, um indivíduo que nunca chegamos realmente a conhecer ao longo do filme, que vagueia pelas ruas na sua limusina, na qual vai falando com a sua secretária, enquanto se maquilha dos mais distintos e por vezes bizarros personagens, com cada interpretação a parecer conter no seu interior um novo filme ou uma nova vida, provocando o espectador, despertando sensações, sejam estas de puro prazer ou o maior dos ódios. "Holy Motors" é um filme que promete gerar amores e ódios. Ou se gosta, ou se odeia, pelo que o meio-termo não se aplica. Leos Carax não fez por menos ao desafiar as convenções e a tirar o espectador do conforto de uma narrativa mais conservadora. Na limusina guiada por Céline (Édith Scob), Oscar maquilha-se. Fora desta, o personagem transforma-se noutra pessoa, numa diferente encarnação, disfarce, seja este a de pedinte, a de um actor que grava uma cena de acção e posteriormente de sexo com vestimentas próprias para as cenas serem alteradas em CGI, um conservador pai de família, um idoso moribundo, passando pelo carismático Monsieur Merde. Este último personagem é algo de caricato e revelador da bizarria que envolve o filme. Deformado corporalmente, pouco arranjado, este é um personagem anti-establishment, meio louco, longe do ideal de beleza, acompanhado pela sua bengala e pelas suas vestimentas verdes, enquanto parte descalço num momento sui generis, movendo-se pelos caminhos subterrâneos e dirigindo-se ao cemitério mais próximo para alimentar-se das flores deixadas aos defuntos, causando o pânico e o desespero.
  Se este é o louco, um personagem digno de entrar num espectáculo do "Circo dos Horrores", a sua companheira de cena contrasta por completo consigo. Interpretada por Eva Mendes, Kay M. é uma modelo bela, sensual, com um visual cuidado, vestes doiradas e refinadas que contrastam com Merde, qual "Bela e o Monstro" que estabelecem uma estranha ligação, que conduz o caricato personagem a transformar a bela modelo com roupas decotadas numa recatada mulher muçulmana. Esta sequência protagonizada pelo peculiar personagem que surgiu pela primeira vez no segmento de "Tokyo!" (realizado por Carax) é provavelmente uma dos momentos mais marcantes do filme, na qual o trabalho de fotografia de Caroline Champetier e Yves Cape exacerbaos cenários, a banda sonora exacerbao momento, no qual os sentidos da audiência são despertados, mesmo que pouco ou nada do que fora apresentado tenha um propósito ou um sentido.
  Enquanto o protagonista viaja na sua limusina em direcção a um destino incerto, experienciando diferentes momentos como diferentes personagens, transformando-se e encarnando diferentes pessoas e almas, assumindo diferentes personalidades, Leos Carax desenvolve um espectáculo cinematográfico desafiador, onde o destino da limusina de Oscar parece ser tão incerto como o destino para onde Carax conduz o espectador. Diga-se que este destino pouco interessa. "Holy Motors" é o espectáculo das sensações, onde a extravagância visual alia-se a uma anarquia da narrativa, na qual Leos Carax mostra que veio para desafiar o espectadore a não deixá-lo indiferente, prometendo despertar amores e ódios, mostrando que o cinema está bem vivo e pronto a despertar as mais diversas sensações.
  No final, fica a dúvida sobre quem é este Oscar? Um personagem que habita várias obras cinematográficas? Um actor que representa vários filmes? Uma alma que habita várias vidas? O que sabemos é que este é o personagem de uma obra sui generis, repleta de diferentes cenários, ambientes, nos quais Leos Carax transporta o espectador para uma jornada cheia de emoções onde não raras vezes somos deixados ao abandono, enquanto Denis Lavant tem um desempenho notável como estes personagens que habitam o protagonista, dando um exemplo do que é a arte de representar. Enquanto Lavant brilha, Carax encanta o espectador para um filme que parece saído de um sonho, partilhando uma atmosfera "Lynchiana", quase surreal, uma poesia da confusão ao serviço de uma narrativa desafiadora, enquanto homenageia obras do passado, entre as quais, "Les Yeux sans Visage" (de GeorgesFranju), não só na presença de Edith Scob, mas também na máscara utilizada por esta.
 Se a nível visual o filme é brilhante, esta estrutura anárquica criada por Leos Carax, transporta o espectadorpara algo único, um espectáculo que procura despertar sensações, surpreender, ir contra a estrutura certinha do cinema mainstream, apesar de algumas das vezes se perder nas suas ambições excessivas. No início de "Holy Motors", deparamo-nos com um personagem interpretado por Leos Carax, que acorda (ou encontra-se num sonho) e depara-se com uma sala de cinema na qual o público está morto, durante uma exibição de "The Crowd", de King Vidor, numa certa crítica à passividade do público. No final de "Holy Motors", os nossos sentimentos estarão tudo menos mortos, com Leos Carax a desenvolver uma obra cinematográfica ousada, um espectáculo bizarro e algo surreal, no qual Denis Lavant tem um desempenho notável e o espectadoré colocado perante um filme que promete não deixar ninguém indiferente.


Classificação: 4 (em 5)
Título: “Holy Motors”.
Realizador: Leos Carax.
Argumento: Leos Carax
Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Leos Carax, Michel Piccoli.

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