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Saturday, 22 December 2012

 Baseado na obra literária "One Shot", de Lee Child, "Jack Reacher" marca a nova incursão do argumentista Christopher McQuarrie na realização cinematográfica, após ter realizado "The Way of the Gun" em 2000. Conhecido pela elaboração do argumento de filmes como "The Usual Suspects" e "Valkyrie", McQuarrie tem na adaptação do oitavo livro da saga literária de Jack Reacher uma tentativa de estabelecer uma nova franquia, centrada no popular personagem literário, que serve de veículo para Tom Cruise demonstrar o seu carisma ou como este pode interpretar vários personagens como se fossem Ethan Hunt, o protagonista da saga "Missão Impossível". Recheado de acção, alguma emoção e tensão, "Jack Reacher" partilha a simplicidade do título com a densidade do seu argumento, que se revela demasiado simples e irregular, numa obra que procura utilizar os vários clichés do género. 
 Apesar de todos esses clichés, não deixa de ser curioso que logo nas cenas iniciais de "Jack Reacher" encontremos uma cena violenta, a fazer lembrar alguns massacres aleatórios ocorridos nos EUA, entre os quais, o tiroteio na escola em Newton, no Conneticut, onde um atirador assassinou vinte crianças e seis adultos, algo que levou ao adiamento da Première do filme. No caso de "Jack Reacher", deparamo-nos com uma cena violenta e cheia de estilo, na qual o assassino mira as suas vitimas no topo de um edifício, onde encontramos um silêncio ensurdecedor, um silêncio quebrado pelo som estridente das balas deste indivíduo exímio na arte do disparo que é capaz de assassinar cinco pessoas inocentes, em Pittsburgh, na Pennsylvania. 
 Sem grandes dúvidas em relação à identidade do assassino, as autoridades, através da figura do agente Emerson e de Alex Rodin, e o Promotor do Ministério Público (Richard Jenkins) colocam como culpado do caso o ex-sniper James Barr (Joseph Sikora). Envolvido no passado num caso similar, este guarda consigo um conjunto de traumas de guerra e fome de matar que facilmente levam a acusação a julgar que este é o culpado, ao contrário de Helen Rodin (Rosamund Pike), a filha de Alex e advogada do acusado. No entanto, o caso conhece uma reviravolta quando Barr pede para chamarem Jack Reacher. 
 Jack Reacher é um ex-soldado cujo paradeiro é praticamente desconhecido, sendo conhecido pela sua capacidade para desvendar crimes durante o seu tempo como militar, bem como pela sua memória, poder de dedução e personalidade reservada. Este deixa a vida calma como "fantasma" quando ouve falar na acusação de Barr e cedo envolve-se na investigação ao caso, algo que promete causar alguma comoção junto do promotor do Ministério Público e de Emerson, bem como dos verdadeiros culpados do assassinato. Sem poder falar com Barr, o seu antigo colega no exército, devido ao facto das autoridades terem "encomendado" que o ex-militar fosse espancado, Reacher terá de utilizar o seu poder de dedução para descobrir as pistas que levem ao verdadeiro assassino. Com o perigo a espreitar em todos os locais, Reacher conta com o apoio de Helen nesta procura de descobrir a verdade sobre o verdadeiro autor dos assassinatos, que cedo procuram travar os desideratos de Reacher e colocar a vida deste e da advogada em perigo. 
 Não deixa de ser curioso que um argumentista como Christopher McQuarrie, que escreveu o argumento de obras como "The Usual Suspects", surja em "Jack Reacher" com um argumento pueril que pouco ou nada se distingue em relação aos filmes do género, ao mesmo tempo que mostra alguma incapacidade com a câmara, desenvolvendo um filme de acção recheado de clichés que pouco ou nada acrescenta ao género. Partilhando a moda de dar ao filme o nome do protagonista, "Jack Reacher" surge como uma tentativa de estabelecer uma franquia em volta do popular personagem criado por Lee Child e assim aproveitar o seu vasto conteúdo literário (um total de dezassete obras literárias) para desenvolver um conjunto de filmes de acção que prometem ser o veículo ideal para Tom Cruise protagonizar. 
 "Jack Reacher" revela-se um bom teste para a popularidade e capacidade de Cruise protagonizar uma nova franquia, procurando obter o mesmo sucesso da saga "Missão Impossível". Carismático, dinâmico, com grande estilo, Tom Cruise tem em "Jack Reacher" a possibilidade de mostrar que mantém o seu talento como astro de filmes de acção, ao interpretar um personagem que partilha muitas semelhanças com Ethan Hunt, o personagem interpretado por Cruise em "Missão Impossível". Muito criticado pela falta de semelhanças físicas entre o actor e o personagem literário, Tom Cruise mostra que tem carisma para interpretar Reacher, tornando verosímil que este consiga distribuir pancada com a mesma facilidade com que salta para o sofá da Oprah. Com grande habilidade para resolver casos intrincados, Reacher surge como um ex-militar marcado pelos traumas do passado, um indivíduo reservado que esconde uma grande dose de sarcasmo e permite uma boa dinâmica com a personagem interpretada por Rosamund Pike. Se Cruise surge como um antigo militar que é capaz de enfrentar sozinho as maiores adversidades, Pike surge como uma advogada idealista que se alia ao protagonista, com a dupla a embrenhar-se na investigação relacionada com os assassinatos em série, enquanto Cruise e Pike revelam uma dinâmica relativamente interessante mas longe de ser entusiasmante. Curiosamente, quem sobressai ao longo do filme são alguns dos actores secundários, entre os quais Robert Duvall como Cash, o carismático dono da loja de armas onde o antagonista treina o disparo, bem como o cineasta Werner Herzog que proporciona alguns momentos involuntariamente hilariantes como Zec, um dos perigosos antagonistas. A cena em que Zec se apresenta evidencia e bem as debilidades do argumento e alguns dos momentos absurdos que povoam a narrativa, com o personagem a explicar de forma efusiva como perdeu os seus dedos na Sibéria, um momento que roça o ridículo, com o tom sério em que é dito a provocar o riso involuntário no espectador, revelando bem as fragilidades do enredo, que não poupa nos clichés para encher a narrativa de momentos previsíveis e caricatos (por vezes parece que estamos a ver um genérico da saga “Bourne”). 
 Sejamos sinceros. Se já viu mais do que um filme de acção, o mais provável é que raramente fique impressionado com o que "Jack Reacher" tem para dar. Desde o protagonista solitário que, sozinho, é capaz de desancar vários marmanjos, à tensão sexual entre o protagonista e a principal personagem feminina, passando pelos antagonistas maus como as cobras cujas intenções pouco importam, por muitas cenas de acção e tensão (sobretudo durante o período de investigação do assassinato), as personagens secundárias que estão na narrativa para serem eliminadas, entre muitos outros elementos facilmente reconhecíveis, embora Christopher McQuarrie tenha o mérito de conseguir utilizar esses clichés de forma relativamente bem conseguida e apresentar um filme de acção competente que consegue entreter o espectador. 
 Recheada de clichés, a narrativa consegue surpreender não só na leve crítica ao treino dos soldados e aos traumas experienciados durante as missões militares, mas também quando procura apresentar vítimas do atentado e os seus familiares, de forma a dar um tom mais humano à história, mas falha num elemento fulcral para um filme do género que passa pelas cenas de acção e na pouca originalidade da história. Se as lutas corpo a corpo funcionam relativamente bem, com as coreografias a mostrarem a capacidade extraordinária do personagem de Cruise em dar pancada, quando McQuairre sai da sua zona de conforto e passa para as perseguições logo percebemos que este último estava bem melhor como argumentista. Apesar de não impressionar, não deixa de ser necessário realçar que "Jack Reacher" funciona como filme de acção e promete agradar aos fãs do género, beneficiando imenso do carisma de Tom Cruise e do trabalho do director de fotografia Caleb Deschanel, sendo visível a procura de adensar a dinâmica da narrativa com a utilização de vários ângulos, planos e efeitos de câmara, enquanto Christopher McQuarrie não impressiona na cadeira de realizador. "Jack Reacher" revela-se, assim, um filme de acção dinâmico, mas pouco original, que tem o mérito de despertar a atenção para as obras literárias de Lee Child.

Classificação: 2.5 (em 5) 
Título original: “Jack Reacher”. 
Realizador: Christopher McQuarrie. 
Argumento: Christopher McQuarrie. 
Elenco: Tom Cruise, Rosamund Pike, Richard Jenkins, David Oyelowo, Jai Courtney, Joseph Sikora, Werner Herzog, Robert Duvall.

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