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Sunday, 30 December 2012

 Magnificamente elaborado, "Era Uma Vez na Anatólia" apresenta de forma artística e minuciosa a história de um grupo de homens que procura o corpo de um homem assassinado, nas estepes da Anatólia. Esta é uma busca demorada, complicada, devastadora, que afecta as mentes daqueles que se locomovem no interior dos veículos, enquanto desesperam por encontrarem o mais rapidamente possível o corpo da vítima. Este esgotamento e desespero que por vezes parece tomar a alma dos personagens surgem expressos de forma paradigmática pelas imagens em movimento, enquanto o realizador Nuri Bilge Ceylan coloca o grupo formado pelos dois suspeitos do assassinato, o médico Dr. Cemal (Muhammet Uzuner), polícias, um elemento do Ministério Público (Taner Birsel), às voltas por terrenos desérticos, que geram a esperança de encontrar o corpo mas parecem não levar a lado nenhum.
 A tensão aumenta a cada pista errada que Kenan (Firat Tanis), um dos acusados, fornece às autoridades, uma tensão que se reflecte na violência e nas atitudes tomadas, enquanto estes homens aos poucos trocam diálogos sobre assuntos como os seus trabalhos, ética profissional, vida pessoal, procurando fugir ao desespero de nada encontrarem. Estas voltas, desenvolvidas em parte durante a noite, nas imediações da cidade de Keskin, levam este conjunto de homens ao desespero. Nuri Bilge Ceylan não poupa neste conjunto de buscas frustradas enquanto gradualmente o enredo começa a revelar pormenores relativos ao assassinato, às suas causas, à personalidade de cada personagem, tudo apresentado de forma belíssima, com o trabalho de fotografia de Gökhan Tiryaki a sobressair sobretudo nos cenários nocturnos, onde as luzes pouco presentes surgem como pequenas réstias de esperança nessa escuridão do desconhecimento do local do cadáver.
 Inspirado numa história verídica, "Era uma vez na Anatólia" concentra as suas atenções nos personagens, nas suas faces, nas hierarquias de poder que guiam os seus relacionamentos, tudo a um ritmo aparentemente lento, que permite exacerbar a forma como a passagem do tempo surge perante os personagens. Com um conjunto de bons desempenhos por parte dos diversos elementos do elenco (em particular Muhammet Uzuner como o médico), com um ritmo narrativo lento que nos aproxima dos personagens, que permite criar maior impacto nas revelações que vão sendo efectuadas ao longo da narrativa, "Once Upon a Time in Anatolia" exibe a capacidade de Nuri Bilge Ceylan em exibir a complexidade da condição humana e desenvolver uma obra sublime, recheada de belos planos e momentos de grande significado.
 Essa procura da representação da condição humana, da sua complexidade, é algo que surge evidente na própria estrutura hierárquica do grupo, com cada um a ter a sua função, nas personalidades de cada personagem, bem na procura de Ceylan em dar atenção às faces de cada elemento, algo que salientou em entrevista ao The Telegraph, "The face tells you everything. It’s the only way to get to the truth because, most of the time, the words we say are not true. We have a tendency to deceive others to protect ourselves”, ou seja, a procura de expressar os estados de alma dos seus personagens. Esta atenção à face dos personagens, ao detalhe, ao simples fruto que rebola pelo cenário, aos silêncios, à representação dos cenários, enquadrados com planos fixos pelos quais vagueiam os personagens, é representativa de toda a atenção ao pormenor dedicada pelo cineasta, que surge incrementada por um argumento elaborado, que permite às artísticas imagens em movimento encontrarem paralelo na história. Diálogos quotidianos, situações complicadas, silêncios, verdades que são descobertas, um assassinato que trouxe várias consequências, esqueletos no armário que pretendem sair, "Bir Zamanlar Anadolu'da" é um espectáculo cinematográfico gratificante, que apenas nos pede para seguir a jornada dos seus personagens. Esta jornada tem um ritmo lento? Sim, mas serve paradigmaticamente a narrativa, revelando-se uma obra gratificante que consegue surpreender o espectador, apresentando um tom negro e misterioso, que não se esgota na mera procura por um corpo, apresentando algum pessimismo em relação ao ser humano.
 Vencedor do Grand Prix, na edição de 2011 do Festival de Cannes (ex-aequo com Le Gamin au Vélo), "Once Upon a Time in Anatolia" raramente desaponta e confirma as boas indicações deixadas pela atribuição do prémio. O título "Once Upon a Time" remete para o clássico filme de Sergio Leone, mas também para o início dos contos de fadas. Longe de ser um conto de encantar, "Once Upon a Time in Anatolia" remete-nos para a labiríntica jornada de um grupo de homens em busca da verdade, uma intensa jornada emocional na qual a complexa condição do ser humano é observada, num filme magnificamente elaborado por Nuri Bilge Ceylan.


Classficação: 4 em 5.

Título original: “Bir zamanlar Anadolu'da”.
Título em Portugal: “Era uma Vez na Anatólia”.
Título em inglês: “Once Upon a Time in Anatolia”.
Realizador: Nuri Bilge Ceylan.
Argumento: Nuri Bilge Ceylan, Ercan Kesal e Ebru Ceylan.
Elenco: Muhammet Uzuner, Yılmaz Erdoğan, Taner Birsel, Ahmet Mümtaz Taylan as Chauffeur Arap Ali, Fırat Tanış, Ercan Kesal, Cansu Demirci, Erol Eraslan.

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