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Sunday, 16 December 2012

Pi Patel: Animals have souls... I have seen it in their eyes. 

Pi Patel não tem problemas em contrariar o pai em relação à visão que este tem sobre os animais e logo salienta que "os animais têm alma". Após terminarmos de ver "A Vida de Pi", o novo filme realizado por Ang Lee, ficamos também com a noção que os filmes têm alma, que têm muito mais a partilhar com o espectador do que inicialmente pode parecer, ao proporcionarem momentos verdadeiramente arrebatadores. Visualmente brilhante, "A Vida de Pi" evidencia todo o trabalho meticuloso de Ang Lee para tirar o projecto do papel, um empenho que é visível em toda a atenção aos pequenos detalhes, à história, aos cenários e guarda-roupa dos personagens, em contar uma boa história que, acompanhada pelo soberbo trabalho do director de fotografia Claudio Miranda, se traduz num filme visualmente deslumbrante, no qual o 3D surge utilizado de forma paradigmática.
  Não é só o 3D e a estética do filme que deslumbram o espectador, mas também toda a narrativa bem elaborada, na qual somos apresentados à história de Piscine Molitor Patel (partilha o nome das famosas piscinas frequentadas pelo tio), mais conhecido por Pi, enquanto este relata vários episódios da sua vida a um escritor que anseia escrever um novo livro. Entre a infância de Pi e a sua adolescência, na qual o protagonista se depara com toda a mescla de culturas da sociedade indiana (veja-se o caso deste professar várias religiões diferentes), a procura de evitar ser gozado na escola devido ao seu nome (piscine ser associado a pissing), a procura de encontrar Deus, "A Vida de Pi" apresenta um pouco da cultura, sociedade, território da Índia, um retrato cheio de cor e ilusão, onde não falta um pequeno interlúdio amoroso com Anandi (Shravanthi Sainath).
  Com uma infância passada na casa dos seus pais, em Pondicherry, Pi tem no zoo da sua família uma fonte de entretenimento e de aventuras, sobretudo quando decide alimentar o atraente (mas perigoso) tigre de Bengala chamado Richard Parker. Quando as receitas do jardim zoológico começam a baixar, o pai de Pi decide sair da Índia em direcção ao Canadá, tendo em vista encontrar melhores condições de vida para si, para a sua esposa e para os seus filhos. É aqui que começa verdadeiramente a aventura. No barco, um terrível acidente leva a que o navio afunde e Pi embarque numa jornada de sobrevivência ao lado do perigoso Tigre de Bengala. Aos poucos, estes dois começam a aprender a respeitar-se, enquanto procuram sobreviver em alto mar e superar todas as dificuldades, ao mesmo tempo que Ang Lee desenvolve uma das mais belas e marcantes obras cinematográficas do ano.
 Inspirado no livro "Life of Pi", de Yann Martel, "A Vida de Pi" é um exemplo paradigmático de que o cinema continua a conquistar tantas pessoas e a ser um fenómeno de massas. Se a nível visual o espectador toma consciência de estar a ver algo de único, que apenas a tecnologia actual poderia permitir trazer ao grande ecrã (o livro demorou vários anos a ser adaptado), a verdade é que seria um grande erro reduzir a obra ao seu visual e esquecer a história que este tem para nos contar, com Ang Lee a partilhar com o seu protagonista a capacidade de desenvolver uma boa história, capaz de prender o espectador, mesmo nos momentos mais parados.
 Com um final que promete surpreender (que obviamente não será aqui abordado), "Life of Pi" consegue sempre manter o interesse do espectador durante toda a narrativa, quer pela sua peculiar e inspiradora história, quer pelo seu magnífico visual, apesar de sabermos desde o início o desfecho da história do protagonista, ou seja, que este sobrevive à jornada, visto que apresenta parte da história da sua vida num conjunto de flashbacks. Se a história da infância de Pi e toda a narrativa que se desenrola na Índia remetem para um espectáculo próximo de um conto de fadas, muitas das vezes a fazer lembrar a atmosfera de "Le Fabuleux destin d'Amélie Poulain", cheio de cor, ilusão, alguma candura e humor, tudo muda a partir do acidente do barco, com a narrativa a arrancar para o seu momento mais emotivo, dramático e belo, enquanto o protagonista é colocado perante a tragédia, numa dura jornada emocional ao lado do tigre de Bengala. Não espere encontrar o protagonista a fazer festinhas ao tigre, nem o imponente animal a aceitar de imediato a presença de Pi. O protagonista inicialmente teme o animal e este último está desejoso de ter a sua próxima refeição em Pi. Gradualmente, Pi e o Tigre começam a estabelecer uma relação de respeito, enquanto entram numa jornada de sobrevivência na qual a partilha de um peixe pode significar a centelha de esperança no meio de um oceano de desespero.
 Esta jornada de sobrevivência, na qual todo o espectáculo visual sobressai, permite a "Life of Pi" não só exacerbar toda a dureza desta jornada aparentemente interminável, ao mesmo tempo que Ang Lee transforma esta aventura num espectáculo de rara beleza, na qual o mar, o céu e a imaginação parecem ser o limite. É simplesmente delicioso e apaixonante poder apreciar cada momento de "Life of Pi", parecendo estarmos perante belas obras de arte, quadros dignos de estarem expostos no mais prestigiado dos museus, para os quais contribuem os efeitos 3D não surgem como uma mera justificação para o custo do bilhete ser mais elevado, mas sim como um artificio para servir a narrativa. Diga-se que se existe um filme no qual o dinheiro extra da taxa de 3D (e dos óculos) é bem gasto, esse filme é "A Vida de Pi", sobretudo graças à forma harmoniosa como estes efeitos surgem inseridos na narrativa, sendo particularmente impressionante verificar todo o detalhe colocado na água que rodeia o personagem, na perfeição colocada no tigre elaborado em computação gráfica (com uma realidade impressionante), na beleza surpreendente colocada em todo cenário envolvente (veja-se a ilha carnívora na qual se encontram os suricatas), algo que aliado ao argumento bem elaborado de David Magee, à magnífica banda sonora de Mychael Danna e ao bom desempenho de Suraj Sharma colocam o espectador perante uma experiência única em que a sala de cinema se transforma no palco de todos os sonhos, no qual a realidade parece ser esquecida e apenas temos olhos para esta aventura que Ang Lee nos apresenta.
 A certa altura do filme, o escritor revela que veio ter com Pi porque o tio do protagonista salientara que este tinha uma história única para contar. Quem também tem uma história única para contar é Ang Lee. Uma alegoria para a capacidade do ser humano em ultrapassar as adversidades, na qual a fé e a coragem estão sempre presentes, onde um jovem procura encontrar Deus e pelo caminho encontra a tragédia, enquanto o estreante Suraj Sharma surpreende pela capacidade de exteriorizar os sentimentos do seu personagem (é o actor que mais se destaca em relação aos vários elementos que interpretam Pi), mantendo sempre o mesmo estilo naive, no qual a fé parece estar sempre presente. Sem impingir qualquer religião ao espectador (o próprio protagonista professa várias), "A Vida de Pi" procura exacerbar exactamente a esperança do protagonista, a sua capacidade de acreditar no impossível, numa história que parece tão verídica como aquelas que encontramos nos livros religiosos, onde a razão desafia o coração, mas nem por isso deixa de ter milhares de seguidores. Esta fé, seja em Jesus Cristo, seja em Krishna, seja em Alá, traduz-se na procura do protagonista por um rumo, no seu espírito sonhador, na sua vontade e força inexorável para superar as adversidades, uma força que é desafiada constantemente pelo destino que o coloca no meio do Oceano ao lado de um perigoso e imponente Richard Parker, um Tigre de Bengala que se parece conectar com o humano, uma partilha de almas que lutam para não definhar pelas águas do Oceano.
 Entre o Oceano de todos os desesperos, a ilha carnívora de todos os encantos e todos os medos, a alegoria que esconde um passado nefasto, a procura de um Deus que tarda em revelar os seus desígnios, "A Vida de Pi" não se limita a apresentar uma boa história ao espectador, mas também a apaixoná-lo e a transportá-lo para um mundo de cor e fantasia, mergulhando-o num oceano de ilusões, nas quais a fé e a força de vontade de um jovem são colocados à prova numa obra visualmente brilhante, na qual a arte de contar uma história surge aliada à arte de a apresentar. Numa época em que é muito comum surgirem vários nomes associados aos Oscars, Ang Lee ruge bem alto e mostra o seu talento na arte da realização cinematográfica, prometendo estar presente entre os nomeados para as principais categorias, numa obra cujas qualidades fazem esquecer os seus pequenos defeitos e transportam o espectador para um dos mais belos filmes de 2012.

Classificação: 5 (em 5).

Título original:"Life of Pi"
Título em Portugal: “A Vida de Pi”:
Realizador: Ang Lee.
Argumento: David Magee.
Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tond, Gautam Belur, Adil Hussain, Tabu, Rafe Spall, Gerard Depardieu.

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