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Tuesday, 18 December 2012

  Em 2012, "Vertigo" ocupou a primeira posição nalista dos dez melhores filmes de sempre da "Sight and Sound", superando "Citizen Kane", de Orson Welles,que ocupara essa distinta posição nos anteriores cinquenta anos. Lançado de dez em dez anos, este top serve acima de tudo para evidenciar o facto de "Vertigo" ter vindo a gerar cada vez mais aderência e consenso junto do público e da crítica, algo que não acontecera quando fora lançado em 1958, quando recebera críticas algo discordantes. Uma das obras-primas de Alfred Hitchcock, realizador de filmes como "Rear Window" (1954), "North By Northwest" (1959), "Psycho" (1960), "The Birds" (1963), entre muitas outros, em "Vertigo" o talento do cineasta revela-semais apurado do que nunca, onde tudo parece funcionar e nada parece falhar.
 Se Alfred Hitchcock desenvolve uma obra-prima onde nada parece falhar, o mesmo não se pode dizer do protagonista do filme, John "Scottie" Ferguson, um ex-polícia a quem tudo parece correr mal. Desde o início do filme que Scottie e a tragédia andam lado a lado. Um ataque de agorafobia enquanto está agarrado ao telhado de um edifício leva a que um colega da polícia acabe por morrer a tentar ajudá-lo. Perante a morte do colega, lesionado pelo incidente, Scottie decide abandonar a polícia e dedicar-se momentaneamente ao lazer e à companhia de Midge Wood (Barbara Bel Geddes), a sua ex-noiva. Sem conseguir superar o seu medo e pânico em relação às alturas, Scottie recebe uma misteriosa chamada que promete mudar para sempre a sua vida. O contacto telefónico é feito por Gavin Elster, um conhecido do protagonista que lhe pede para vigiar a mulher pois esta  tem apresentado um comportamento estranho, devido a poder estar possuída por outra pessoa, nomeadamente Carlotta Valdes, uma mulher que outrora cometera suicídio, e cujo retrato, que se encontra nomuseu California Palace of the Legion of Honor, apresenta claras semelhanças com Madeleine, a esposa de Elster.
 Inicialmente céptico em relação a toda esta história, Scottie aos poucos começa a levar a sério todo este caso, após seguir Madeleine por locais como o cemitério onde está Carlotta, o museu onde a mulher fica durante um longo tempo a contemplar o retrato de Carlotta, até à baía de São Francisco, o local onde Madeleine tenta suicidar-se, mas o protagonista consegue salvá-la. Gradualmente, Scottie embrenha-se cada vez mais na investigação, procura encontrar justificações para este comportamento de Madeleine, enquanto aos poucos vai efectuando surpreendentes e perigosas descobertas, que parecem sempre encaminhá-lo em direcção à desgraça. Salientar mais do que isto da narrativa é privar o leitor de grande parte do prazer de ver "Vertigo" pela primeira vez, um prazer de ser surpreendido, de deixar as reviravoltas do enredo o desarmarem, enquanto Alfred Hitchcock joga com as diferentes peças que tem à sua disposição e desenvolve uma obra cinematográfica magistral.
 Se "agorafobia" surge associada ao medo de estar em espaços abertos ou no meio da multidão, ao medo de ter medo, ansiedades, perturbações, já "Vertigo" surge associado a uma das obras-primas da história do cinema, um filme que desafiou o teste do tempo e continua a conquistar gerações. Baseado no livro "D'Entre les Morts", de Boileau-Narcejac, "Vertigo" revela-se um acumulado de felizes conjunções onde tudo parece resultar e nada parece falhar. Desde a atmosfera vertiginosa e inquietante, adensada pela música e pelas imagens em movimento, passando pelo magnífico trabalho de fotografia (a utilização da luz consoante a importância do momento, o "Vertigo effect" que cria a sensação de vertigem através da aproximação daquilo que está em primeiro plano e o aumento do que está em segundo plano, entre outros elementos), a banda sonora enérgica e propiciadora do clima tenso do filme (excelente trabalho de Bernard Herrmann, numa das melhores bandas sonoras de sempre), os bons desempenhos de James Stewart e Kim Novak, a boa utilização dos cenários de San Francisco ao serviço da narrativa, tudo parece resultar num filme que mostra um Alfred Hitchcock numa fase de maturidade artística.
  Essa maturidade surge visível na capacidade de Alfred Hitchcock em gerar a tensão no espectador e nos personagens, a criar todo um clima de suspense, onde não faltam algumas das temáticas visíveis em algumas das suas obras. Não falta o célebre MacGuffin, na figura de Carlotta Valdés, uma mulher que surge apenas no imaginário dos personagens, que apenas é sugerida e apenas surge através do belo retrato elaborado por Manlio Sarra, que se encontra no museu de arte visitado pelos personagens de Kim Novak e James Stewart, a procura de um personagem cuja identidade não é a esperada (neste caso, a personagem é interpretada por Novak; em "North By Northwest podemos encontrar o personagem de Cary Grant a ser confundido por um agente da CIA), a queda de personagens de locais elevados, a obsessão do protagonista (neste caso Scottie) por uma mulher, algo que até pode encontrar algumas semelhanças com a vida pessoal de Hitchcock. Esta obsessão do protagonista por Madeleine irá levá-lo a protagonizaralguns actos perturbadores, que incluem obrigar a pintar o cabelo de uma mulher de loiro, revelando não só a sua obsessão pelo ideal de Madeleine, mas também a obsessão do cineasta em escolher mulheres loiras para os seus filmes. A transversalidade temática que podemos encontrar nas várias das obras de Hitchcock evidencia paradigmaticamente o estilo autoral do cineasta, capaz de desenvolver obras cinematográficas capazes de chegarem ao grande público, eivadas de grandes doses de entretenimento, mas sempre com o seu cunho pessoal, algo que é particularmente interessante de verificar quando visionamos várias obras do cineasta de seguida.
 Em "Vertigo", essa maturidade surge visível não só em Alfred Hitchcock, mas também no talentoso actor que dá vida ao protagonista, James Stewart. Na sua quarta e última colaboração com Alfred Hitchcock, após "Rope", "Rear Window" e "The Man Who Knew Too Much", Stewart surge carismático como sempre, neste personagem aparentemente comum, que sofre de agorafobia e que aos poucos desenvolve uma estranha obsessão pela mulher que devia seguir e proteger. Esta obsessão, aliada a toda uma dimensão humana do personagem, um indivíduo recheado de virtudes e muitos defeitos, conduzem a que "Vertigo" surja elevado a um nível superior, uma história vertiginosa onde a tragédia e a morte parecem sempre acompanhar o protagonista. Essa tragédia e morte que acompanham "Scottie" surgem associadas não só à habilidade inata que este tem para as atrair, mas também devido à companhia de Madeleine, uma personagem carismática interpretada por Kim Novak, uma das célebres loiras das obras de Hitchcock, que promete surpreender o protagonista e por vezes o espectador.
 Ao terminarmos de visionar "Vertigo", fica sempre a noção de que Hitchcock elabora algo magistral, que dificilmente será esquecido pelo tempo e pela memória, uma obra onde tudo parece resultar e nada parece falhar. Se no primeiro visionamento somos surpreendidos pela história e por todo o cuidado colocado na elaboração do filme, nos posteriores visionamentos perde-se o encanto daquela primeira vez em que contactamos com a obrae começa-se à descoberta de todo um conjunto de pormenores, que incrementam o filme.
  Desde a magnífica utilização dos efeitos de câmara, os créditos iniciais de Saul Bass (acompanhados por vários close-ups da face de Kim Novak e pela a música de Bernard Herrmann, que dão o mote para o grande espectáculo que aí vem), as interpretações acima da média de James Stewart e Kim Novak, a banda sonora composta por Bernard Herrmann, o argumento de Alec Coppel e Samuel A. Taylor, a realização magnífica de Alfred Hitchcock, tudo contribui para "Vertigo" ser muito mais do que um filme de suspense, mas sim uma obra de arte, uma das obras-primas de Alfred Hitchcock e uma das obras mais marcantes da história do cinema. O tempo passa, mudam as modas, mudam alguns gostos, muda a nossa sociedade, as políticas, economia, no entanto, é sempre curioso verificar que existem obras de arte como "Vertigo" que desafiam o tempo e continuam a despertar a atenção do público, um filme clássico que merece estar em todas as estantes dos cinéfilos por esse Mundo fora. Alfred Hitchcock desenvolveu várias obras de grande qualidade ao longo da sua carreira. Em "Vertigo", desenvolveu "apenas" um dos filmes mais marcantes e icónicos da história do cinema.


Classificação: 5 em 5
Título original: “Vertigo”.
Título em Portugal: “A Mulher Que Viveu Duas Vezes”
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: Alec Coppel e Samuel A. Taylor.
Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Henry Jones, Raymond Bailey, Ellen Corby, Konstantin Shayne, Lee Patrick.

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