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Monday, 10 December 2012

"Amour" não podia ser o título mais indicado para o mais recente filme escrito e realizado por Michael Haneke a estrear nas salas de cinema portuguesas. Esta não é uma história de amor convencional que estamos a habituados a ver no grande ecrã, não apresenta um casal no auge da sua vida, nem da sua relação amorosa, mas sim um casal em idade avançada, que sofre com o aproximar do fim dos seus dias, com a perda das suas faculdades e do interesse da sociedade e da família nas suas pessoas, enquanto vivem isolados no seu apartamento. Esta poderia ser a história do príncipe e da princesa dos contos de encantar quando chegaram à terceira idade e deparam-se com a triste realidade de serem a única companhia um do outro, enquanto tudo à sua volta parece começar a desabar, tendo de lidar com o aproximar da morte.
  Esta é a história de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), dois professores de música reformados, na casa dos seus oitenta anos, que gostam de frequentar espectáculos musicais, de dialogar no autocarro. Cúmplices, a sua casa é o paradigma das suas vidas, organizada, recheada de cultura e  bastante agradável. No entanto, tudo muda quando de um momento para o outro Anne deixa de reconhecer Georges e entra num estado de coma. Pouco tempo depois, acorda e não se recorda de nada. É o sinal da desgraça que se avizinha na vida do casal. Esta tem de ser operada a uma artéria carótida entupida, uma intervenção que não corre bem e leva a que fique com o lado direito do corpo paralisado, sendo obrigada a locomover-se numa cadeira de rodas. Algo abatida pela perda de faculdades, Anne pede ao marido para não a internar, enquanto este procura cuidar da mulher e fazer com que esta sobreviva com as melhores condições possíveis, ao mesmo tempo que assiste gradualmente ao definhar da esposa, procurando sempre manter a lealdade para com esta, num filme arrebatador, onde um casal é obrigado a lidar com as limitações que surgem com a idade. 
 "Amour" é um dos filmes mais tocantes de 2012, um filme sobre o amor incondicional entre um homem e uma mulher no fim dos seus dias, um murro no estômago que expõe à letra o cumprimento do voto sagrado do casamento, no qual consta "na saúde e na doença, na alegria e na tristeza", enquanto um homem mostra uma devoção extrema e lealdade para com a sua esposa, sofrendo por vê-la perante o final dos seus dias, a ser a sombra do que fora no passado e a ver a vida desta a fugir de forma inexorável, ao mesmo tempo que procura cumprir a promessa de cuidar dela. Esta não é a típica história do amor entre um casal que acaba de se conhecer ou passa por uma crise de relação de meia-idade; esta é a história do amor de um casal nos derradeiros dias da sua vida, um casal idoso, mas que nutre uma cumplicidade notável, enquanto todos à sua volta parecem esquecer da sua existência e importância. Essa falta de importância dada pelos personagens que surgem de fora do apartamento aparece representada como uma forte crítica ao tratamento dado pela nossa sociedade aos idosos (paradigmaticamente representado através da filha do casal, que logo pretende tratar "de assuntos sérios" com o pai, ou seja, colocar a mãe aos cuidados de outra pessoa), o desprezo a que estes seres humanos muitas das vezes são sujeitos pelos mais novos, numa sociedade para o qual outrora contribuíram. Diga-se que esta obra poderia muito bem ter o título "morrer esquecido por todos na Europa", ou "morrer esquecido", algo que se aplica a Georges e Anne, um casal cúmplice, que aos poucos vê o destino e o tempo a expulsarem das suas almas a centelha de vida, e o amor que os une a manter-se dia após dia, um amor vivido no interior de um apartamento, um cenário fechado, que se torna no palco da sua história, por onde toda a narrativa se passa, num retrato intimista da relação entre um casal de idosos.
 Vale a pena salientar que "Amour" não é o típico filme lamechas que apela às lágrimas do espectador. Pelo contrário, o filme impressiona exactamente pela sua crueza, causando uma certa dor no peito da audiência, enquanto vê Georges a tomar conta da esposa, a alimentá-la, a lavá-la, a contar-lhe histórias, a lutar contra tudo e todos que se metam no seu caminho, ao mesmo tempo que percebemos que Michael Haneke nos conduz em direcção à desgraça destes personagens e a um dos melhores filmes, se não o melhor, a estrear nas salas de cinema portuguesas em 2012. Planos estáticos e longos povoam a narrativa, exacerbam o momento, enquanto Georges movimenta-se pela sua casa, procura cuidar da esposa, um movimento aparentemente calmo, mas que esconde um grande desespero, sentimento visível no olhar e no desempenho intenso de Jean-Louis Trintignant, um actor que tem um desempenho magnífico, colocando um empenho notável na sua representação, expondo de forma sublime a montanha russa de sentimentos que assolam o seu personagem, enquanto este parece aparentemente apático. Se Trintignant tem um desempenho notável, o mesmo se pode dizer da sua parceira no grande ecrã, Emmanuelle Riva, que tem um papel em que obrigatoriamente tem de estar entre as nomeações para melhor actriz na edição de 2012 dos Óscares. Ao longo da narrativa, podemos ver a gradual decadência da sua personagem, a sua perda de faculdades, a forma como aos poucos se envergonha pela presença de outras pessoas, a forma como parece rejeitar a vida e amar o marido, formando com o seu parceiro de elenco um casal simplesmente arrebatador, no qual a perda de faculdades físicas não parece fazer esquecer o amor.
 "Amour" não é um filme agradável, promete muitas das vezes fazer o espectador sentir-se deprimido, inquieto, revoltado. A vida também não é apenas feita de alegrias e o cinema não tem apenas que mostrar os momentos luzidios do quotidiano,Michael Haneke sabe disso, e conduz o espectador ao abismo e desespero de um casal de idosos, numa obra dramática, intimista, emocionalmente intensa, acompanhada por uma estética sublime, dominada por planos estáticos, luz difusa, um domínio exímio da utilização do fora de campo, onde se destaca o trabalho de fotografia de Darius Khondji, num filme que contrasta o ritmo aparente lento com o fulgor dos sentimentos que desperta.
Esse ritmo, compassado a um nível aparentemente lento, cadencia o desespero do protagonista, a sua incapacidade para travar o triste destino que espera a mulher, o desespero por ver a amada a perder as suas faculdades, ao mesmo tempo que Haneke traça uma certa crítica à sociedade contemporânea. O caso do relato do funeral do amigo a que fora Georges é paradigmático do circo que estes eventos podem ser e da banalidade que a morte de uma pessoa idosa pode ter para muitos dos elementos que vão por mera obrigação a estes eventos, um desrespeito que surge representado pela falta de atenção dada pela filha, bem como pelo tratamento da enfermeira contratada pelo protagonista, remetendo mais uma vez para a temática da solidão e desprezo para a qual estão votados muitos idosos.
 Experiência arrebatadora, que transfigura por momentos a nossa alma, "Amour" é o retrato perfeito do amor incondicional entre um casal, um amor que se mantém nos piores momentos da vida de cada elemento e pode levar o outro elemento ao desespero. Isolados do Mundo, unidos pelo amor, Georges e Anne conhecem o ocaso dos seus dias, o definhar das suas capacidades, mas nunca do seu "Amor", esse sentimento tão belo que une os seres humanos, desafia o destino e dá o título a aquele que é um dos filmes mais arrebatadores de 2012.

Classificação:  5 em 5

Título original: “Amour”.
Título em Portugal: “Amor”.
Realizador: Michael Haneke.
Argumento: Michael Haneke.
Elenco: Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, Rita Blanco, William Shimell.

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