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Friday, 14 December 2012

 Entre lutas sindicais violentas, ideais utópicos e muito oportunismo, "Hoffa" retrata alguns dos episódios mais marcantes da vida de Jimmy Hoffa, um famoso líder sindical da International Brotherhood of Teamsters, um indivíduo que contribuiu para o crescimento deste sindicato, embora os seus métodos nem sempre fossem os mais ortodoxos. Polémico, muitas das vezes a actuar às margens da lei, inflexível na luta pelos direitos dos trabalhadores do sindicato e na procura de mediatismo, Hoffa é uma figura tão controversa como as opiniões geradas pela biopic realizada por Danny DeVito. Lançado em 1992, "Hoffa" dividiu a crítica (veja-se que conseguiu a proeza de ter Jack Nicholson nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Actor e para o Razzie de Pior Actor), foi um fracasso nas bilheteiras (não atingiu o valor do seu orçamento), mas parece ter envelhecido bem e o tempo veio fazer a alguma justiça a um filme que se destaca acima de tudo por procurar apresentar a ascensão e a queda de um personagem nebuloso da história norte-americana, num período onde as lutas sindicais não se ficavam por reclamações no Facebook, mas sim por protestos fervorosos nas ruas que podiam facilmente descambar em violência.
 Apresentada em flashbacks, a narrativa logo começa por apresentar Jimmy Hoffa e Robert Ciaro (Danny DeVito), numa fase mais avançada das suas vidas, enquanto o primeiro parece pressentir que algo de mau lhe vai acontecer. Gradualmente, somos apresentados a vários episódios da vida de Hoffa, desde o dia em que conheceu Ciaro, um jovem camionista que perde o emprego por sua culpa, passando pela sua ascensão no interior da International Brotherhood of Teamsters, a sua capacidade oratória para convencer aderentes a filiarem-se no sindicato e a professarem a sua causa, a relação complicada com a imprensa, a investigação levada a cabo por Robert Kennedy em relação aos abusos de poder de Hoffa (que incluem negociatas com a máfia, branqueamento de capitais e utilização de fundos do sindicato para benefício próprio) até a narrativa cumprir o seu movimento circular e voltarmos aos acontecimentos do início do filme.
 Mais do que procurar apresentar Jimmy Hoffa como ser humano integrado na sociedade do seu tempo, "Hoffa" opta por apresentar o protagonista como um sindicalista fervoroso, que defende os seus ideais como poucos, mesmo que para isso tenha de fazer negócios obscuros, que coloquem em causa a sua idoneidade e integridade física, algo que lhe vai trazer problemas com a lei, em particular na figura de Robert Kennedy, criando um microcosmos no qual a estrutura sindical parece ser o centro por onde gira todo o universo dos personagens. Interpretado pelo sempre carismático Jack Nicholson, Hoffa surge como um personagem aparentemente impassível perante tudo o que é exterior ao seu sindicato, um indivíduo solitário, que tem poucos companheiros de jornada (com excepção de Ciaro) e tem na defesa da sua causa os momentos mais apaixonados, algo que permite a Nicholson criar um personagem aparentemente frio, que procura ascender no interior do sindicato, mesmo que isso implique envolver-se com a máfia. Esse envolvimento com a máfia, através da figura de Carol "Dally" D'Allesandro (com Armand Assante a navegar pelas sua área de conforto), visa a ascensão do poderio do sindicato e do próprio Hoffa, uma subida efectuada a todo o custo, independentemente da pouca legalidade das iniciativas, que resume bem a complexidade da obra desenvolvida por Hoffa, enquanto a sua vida em família é colocada praticamente de lado.
 Diga-se que não é apenas Hoffa quem coloca a família de lado ao longo do filme, visto que toda a narrativa pouco ou nenhuma importância dá à mulher do personagem, sendo que o próprio contexto histórico que engloba a narrativa raramente é aproveitado de forma paradigmática, ficando sempre a ideia de que Danny DeVito procurou apenas efectuar um retrato sobre "Jimmy" Hoffa como sindicalista, deixando de lado os vários "apêndices" que o rodeiam. Com um personagem interessante, mas relativamente frio e solitário como protagonista, cabe a Danny DeVito interpretar o porto de abrigo do protagonista, o seu companheiro de jornada, um personagem ficcional criado por David Mamet que serve também como ligação entre o espectador e a narrativa, acompanhando a par e passo a ascensão e queda de Hoffa.
 Sem deslumbrar no cargo de realizador, Danny DeVito segue uma estrutura narrativa circular para contar vários momentos da vida de Hoffa, desenvolvendo uma cinebiografia algo convencional, que procura abordar a vertente sindicalista do protagonista e a sua dedicação ao cargo, numa época em que a disputa pelos direitos laborais (que gradualmente estão a ser perdidos nos dias de hoje) revela-se acirrada, algo visível na marcha dos sindicalistas, na qual não faltou muita violência e até mortes. Se esta representação da greve surge violenta, com uma opulência notável, o mesmo não acontece com o contexto que a integra, numa obra que abarca um período temporal compreendido entre 1935 a 1975, cujas mudanças políticas e sociais resumem-se a pouco mais do que mostrar o crescimento do sindicato de Hoffa. Diga-se que este crescimento do sindicato, através do aumento de afiliados, de acordos, de negociatas que envolvem pressionar os próprios camionistas, as greves e marchas dos camionistas, as dicotomias internas e as complexidades no interior das estruturas sindicais são paradigmaticamente representadas ao longo do filme, algo que advém acima de tudo do argumento bem escrito de David Mamet e da realização de DeVito, que apresentam o sindicato com uma estrutura complexa e intrincada.
 Com várias liberdades históricas, sem uma estrutura narrativa brilhante, "Hoffa" destaca-se acima de tudo pelos magníficos desempenhos de Jack Nicholson e Danny DeVito, pela capacidade de evidenciar a complexidade de um movimento sindical em crescimento, de mostrar as lutas arreigadas efectuadas por estes elementos em parte do período da narrativa, num projecto muito pessoal de DeVito, que mostra todo o empenho do actor e realizador. Figura de grande importância para o crescimento da International Brotherhood of Teamsters, James Hoffa tem em "Hoffa" um filme biográfico que evidencia todo o seu papel relevante como sindicalista, numa obra onde fica sempre a sensação de que falta algo que a faça sobressair em relação às muitas biopics que estreiam nas salas de cinema.

Classificação: 3.5 em 5. A partir desta crítica os filmes passam a ser avaliados de 0 a 5 no Rick´s Cinema.


Título: “Hoffa”.
Realizador: Danny DeVito.
Argumento: David Mamet.
Elenco: Jack Nicholson, Danny DeVito, Armand Assante, John C. Reilly, Frank Whaley, Nicholas Pryor.

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